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Cerrado em águas

A centena de dias sem chuva liquidou capim, grama, todos os rastejantes do mundo vegetal. Resignados à hibernação, aguardam, desidratados, melancólicos, as primeiras gotas, que tardam. Árvores de folhas que se manterão verdes, alimentadas por raízes profundas, pairam indiferentes à desgraça alheia. Para a ralé vegetal, o renascimento é sentimento longínquo. Ilusão catastrófica, típica de quem sofre: a chuva virá, como sempre vem. A glória verde retornará, alucinada, absurda. Milagre silencioso de todo santo ano.

Enquanto as gramíneas lamentam as águas de outubro que não chegam, os ipês competem. Quantas luxuriantes flores amarelas, roxas ou brancas pode um galho franzino suportar? Atletismo sem limites, mas nessa seara exagero nunca é mau gosto. Múltiplas copas explodindo em cor, olhares vidrados, boquiabertos. Esgotadas as forças, os ipês derramam suas cargas ao solo. Expressionismo sem pincel: o vermelho argiloso do chão, o ocre das folhas secas, tingidos de amarelo despudorado, roxo introspectivo, branco celestial. De fazer Van Gogh arrancar a outra orelha.

A chuva tarda, sábia.

No subsolo, entre raízes, os cantos estridentes que anunciarão as águas maturam. Brotarão do chão desidratado, escalarão com pernas trêmulas os troncos rugosos, romperão às dores suas armaduras de quitina. Voarão. Agarradas aos galhos despidos, as cigarras clamarão sem trégua pela sacra umidade. Tantos anos de espera sob a terra, a morte agora tão próxima, não é para menos. Quando as águas finalmente vierem, saberão que não libaram em vão. Por ora, tudo é angústia.

A chuva enfim desce. Começa incerta, tateia, depois jorra. Ensopa a grama, encharca as cigarras. Escorre pelos troncos indiferentes. O verde brota, invade o mundo. Monocromeia, monotoniza. Traz com ele o luto da flor.

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Máscaras

No sonho, ao final do plantão, quando Mateus tirou a máscara, seu nariz havia sumido. A boca também. Manteve a calma. Pudera, ponderou, passei a noite inteira sem respirar direito, correndo de um leito para o outro. O que a gente não usa, atrofia, depois some. Supôs o mesmo para a boca: não teve tempo de comer nada todo o plantão. Só podia dar naquilo.

Mas logo inquietou-lhe o futuro. Sem nariz, sem perfume? Luana adorava, tinha uma dezena deles, pedia sempre que tentasse adivinhar qual era. Nunca acertava, mas era tão bom… E tinha tanto prazer em comer sem freios depois de um plantão, enterrar as privações numa pizza tamanho GG, numa macarronada fumegante. Ah, o clássico bife à parmegiana do bar do Manoel… Sem boca, como faria?

Acorda, sobressaltado. Leva a mão ao rosto, apalpa. Plástico. Tubo. O enfermeiro mascarado pedindo que se acalme, que não toque o respirador.

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Dulcineia

Bastaram uns poucos meses morando com Dom Quixote para Dulcineia se dar conta do tamanho do equívoco. Deixara-se dopar por aquele par de olhos turvos, que a enxergam sempre divinamente bela. Não quer, nem jamais quis, beleza alguma. Deseja é plantar, colher, vender seus produtos orgânicos na feira ecológica de La Mancha. Seu corpo sempre foi instrumento, nunca fim.

Dom Quixote não entende, louva sem trégua seus atributos de musa, dedica-lhe poemas apaixonados — repletos de constrangedores clichês — todo santo dia. Declamados aos brados no quarto, na cozinha. Uma tortura. E Dulcineia ainda tem que conviver com aquela armadura medonha, sempre atirada pela casa.

Paz só tem mesmo quando ele sai campo afora com Sancho para as tais aventuras. Somem por dias a fio, uma bênção! Pela janela da sala, Dulcineia os observava encolherem no horizonte. Ele alto, magro como um poste. Sancho atarracado, as redondezas saltando das calças justas. Conversas gesticuladas, infinitas. Aqueles dois sim, talhados um para o outro.

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Labirinto

É o sebo mais antigo da cidade, muita coisa rara, garantiu o Lucas. Tenta lá.

Caminho pela Dom Pedro II, localizo a entrada. No umbral, a placa esmaecida: Caleidoscópio. Escada estreita, íngreme, mergulhando para o subsolo. Cheiro forte de mofo, rangidos a cada passo.

A sala pouco iluminada é ampla, pé-direito baixo, as torres de livros brotam desordenadas do parquê, tocam o teto. Há passagens para salas anexas. Espirro. Meus olhos comicham. Ninguém à vista. Esgueiro-me entre as prateleiras.

Pois não?

A voz é grave, de homem velho. Não o vejo.

Procuro Poemas de outono, de Afrânio Sampaio, digo.

Silêncio.

O livreiro surge de trás de uma das prateleiras. Baixo, grisalho, amarrotado. Coça a barba, pensativo. Murmura que talvez tenha, acha que lembra desse nome. Livros demais, memória de menos, diz.

Acompanho-o a uma das salas anexas. Ao fundo, uma grande massa de livros derramados. Espirro. Minha garganta formiga. Meus olhos ardem. Ele revira a pilha, inspeciona capas, os óculos se equilibrando na ponta do nariz. Talvez o vô Afrânio nunca tenha escrito o tal livro. Mentia muito, dizem. Inventava a própria vida. Versos declamados nas festas de família. Ecoam na minha cabeça, irrecuperáveis. O velho livreiro persiste. Meus olhos não param de lacrimejar. Minha garganta arde.

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Mandamento

Templo lotado, porta lateral entreaberta. O vira-lata ossudo hesita, enfia a cabeça, espia. Cruza a porta. Ladeia delicado as fileiras de fiéis. Olhar pio, suplica.

A menina percebe, puxa a barra da camisa do pai, aponta. Olha lá, tá com fome. O pai atento às palavras do pastor, repousa a mão sobre os cabelos escorridos da filha, afaga-os. Leva o indicador à boca.

Cale-se.

Ela franze a testa, espreme a pequena boca em angélico bico. Cruza os braços. Fustiga o pastor com seu olhar mais duro.

Vozes ecoam no templo. O pai ergue as mãos ao teto, cerra os olhos, murmura. A menina se esgueira, escapa trotando até o cachorro. Ele abaixa as orelhas, se deita, balança o rabo.

Afago. Afago. Afago. Cão feliz. Menina feliz.

Espia o pai. Ainda mãos erguidas, olhos fechados, agora fala alto, queixo pro teto, a barba grossa. O dinheiro do lanche no bolso do pai. O cão, a fome sagrada, os olhos úmidos de bicho bom. O rabo que balança, a língua caída pro lado. A pequena mão que afaga, que vai entrar e sair daquele bolso em um piscar de olhos.

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Omnibus

Rui sozinho na parada. Conta o tempo, reconta. Coça o nariz. Examina o chão. Ergue os olhos. A rua longa, sinuosa. Carros e motos serpenteiam, pra cima, pra baixo.

Nada do ônibus. Rui inspeciona as unhas, tamborila o jeans. Dois passos pra esquerda, um pra direita. Para. Olha. Coça o nariz.

Uma senhora chega à parada. Sorri, cumprimenta. O cabelo em coque. Vestido liso, verde, longo, a bolsa de couro firme debaixo do braço. O nome, Madalena, ela não chega a mencionar.

Enfim, glória ao Altíssimo, o ônibus nascendo lá no topo da curva. Descendo, decidido. Rui estica o braço. Madalena se apruma.

O grito do freio é de metal velho, abandonado. Pneus gastos, cansados, ônibus rodopiando. Rui abraça Madalena. Heroico? Carente? Jamais saberemos. Unidos pelo acaso, pelo descaso, fazem juntos a travessia para o reino das estatísticas.

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Nuvens

Entardece. Jogado na espreguiçadeira da varanda, ele navega o celular. Magro, camiseta branca sobrando, jeans roto. Pés descalços, se remexendo. Olhos grudados na tela, o rosto fresco, intocado pelo tempo. Franze o cenho.

Coça a barriga. Larga o celular. Senta, cruza as pernas, empina a coluna. Espreguiça os braços de homem pro alto, solta um colossal bocejo de menino. Deita-se de lado na espreguiçadeira, recolhe as pernas. Pega o celular, afasta os cabelos dos olhos com um safanão. Funga. Navega. Cobre a boca com a mão, balança a cabeça, ri.

O céu claro, nenhuma nuvem.

Virão.

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Promissória

Este filho que eu nunca quis. Vem agora todo dia ao hospital, me dá comida, me leva ao banheiro. Escuta atento minhas ladainhas de velha.

Gastei com ele meus melhores dias. Fardo sem fim. Nada nele me interessa. Sorriso que me revira o estômago.

Morro hoje, se der sorte.

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Oferenda

Um pardal morto, cuidadosamente acomodado ao lado da minha cama, me velava. O despertador não tocou, levantei atrasado, esbaforido, quase pisei no cadáver. Zara em cima do roupeiro, me observando. A felina cabeça adernada, a ponta do rabo se retorcendo.

Já sei que é presente. Explicou-me Vanessa, a veterinária, em seu jaleco impecável. Cabelo ruivo, sorrisão espetacular, daqueles de doer os olhos de tanta luz. É uma oferenda, a Zara quer ensinar você a caçar, disse.

Dei sorte, na verdade. Já ganhei morcego, lagartixa, camundongo. Mortos, vivos, em coma induzido. Atrasado, não pude lidar com meu presente na hora, saí correndo de casa, dando nó na gravata. O pardal ficou lá, desafortunado, durinho sobre a gélida lousa. Ao final da tarde, quando retornei, continuava no mesmo lugar. Zara de plantão ao lado dele, caso eu não tivesse entendido o óbvio: que era uma oferenda, a ser aceita, e muito celebrada.

Enrolo o pardal em papel toalha, coloco-o respeitosamente no lixo. Zara me seguindo com seus passos de veludo, miando, aguda. Tento compensá-la com um afago. Peço que me traga a Vanessa da próxima vez — viva, por favor. Zara me ignora, resvala pra cima da estante da sala. Lambe as patas. Me encara, sisuda. Pisca.

Fome, hora de jantar. Tiro o meio frango do refrigerador, abro a embalagem, descarto isopor, plástico, besunto a carne com tempero pronto, coloco na assadeira. Ligo o forno.

Esfinge sobre a lava-louça, Zara me observa. Eu em pé, terno ainda, gravata afrouxada, camisa branca respingada de tempero pronto, assadeira com o meio frango besuntado na mão, o forno aquecendo.

Zara alterna olhares graves: eu, o frango, o frango, eu. Desce da lava-louça, o cetim de sempre. Abandona a cozinha em silêncio, sem olhar pra trás.

Nunca mais recebi oferendas.

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Arca

Noé se ajeita no banco, espia o céu carregado, gira a chave, arranca o ônibus. Linha 601, circular metropolitano, mais de uma hora cada volta. Até a primeira parada, dez minutos só seus, ônibus vazio, braço pra fora, vento no rosto, cigarro, cantoria, delícia.

Na primeira parada, apenas o casalzinho sorridente, loiro, morena. Noé abre a porta, sobem. Na segunda, mais um, moreno e loira. Sobem. Depois duas jovens às carícias, dois senhores de mãos entrelaçadas. Em seguida mais dois ou duas, um e uma, uma e um, difícil saber, os olhos de Noé embaralhados de tanta combinação. Pretos, pardos, brancos, vermelhos, amarelos. Cabelos lisos, crespos, cacheados, raspados, faltando. Sempre subindo, aos pares, parada por parada.

Ônibus lotado, pululando. As paradas agora todas vazias como nunca antes. Noé com um troço estranho no peito, não sabe se angústia, euforia. Mãos firme no volante, pensamento mergulhado no asfalto. Faz o sinal da cruz, beija a medalhinha dourada.

Chega a chuva. Cântaros, divinos, inclementes. Água que sobe, ergue o ônibus. Noé solta o volante. Flutuam, esmo. Agora é com Deus, pensa.

Quarenta dias, quarenta noites, águas incessantes. Noé fuma, espia os passageiros pelo retrovisor. Conversam, animados. Pares que trocam o tempo todo. Abraços, beijos, risadas.

A chuva cessa. Passageiros adormecidos, empilhados. Alguns roncam. Noé insone, olha em volta: cidade toda submersa, trezentos e sessenta graus de espelho d’água sem fim. Nada do que era é.

Mais cento e cinquenta dias à deriva, Noé sem pregar o olho, cigarro se foi. Arremessa a medalhinha dourada pela janela. Chora. Quer apertar o botão, abrir a porta do ônibus, deixar a água entrar, acabar com tudo aquilo.

Adormece sobre o volante.

As águas baixam, cuidadosas. O ônibus, linha 601, circular metropolitano, pousa sobre a lama da praça da República. Os passageiros aguardam, comportados, silentes. Quando Noé despertar, sairão, dois a dois, mãos dadas, sob a bênção do arco-íris, deslumbrante como nunca antes.