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Jardim

Décimo quinto andar, varanda vazia. Irineu começa com um vaso de manjericão. Prova folhas. Degusta as delicadas flores. Suspira. Decidido: será um jardim de temperos.

Compra mudas de alecrim, sálvia, tomilho, orégano, pimentas várias, coentro, tudo que encontra. Hortelã. Encanta-se por um pé de funcho. A varanda agora abarrotada, verdeja. Os aromas se entrelaçando, embriagantes. Irineu rega, masca folhas, morde ramos. Temperado por dentro, por fora.

Os pulgões não tardam. Tampouco os fungos. Chegam as formigas alpinistas. Irineu compra o veneno mais forte da loja, borrifa tudo, as mãos trêmulas, os olhos esbugalhados. Mastiga folhas aos punhados, engole pimentas inteiras. As lágrimas viscosas, avermelhadas. Adoece. Uma semana se revirando na cama, a baba grossa, verde. Alucinações.

Décimo quinto andar. Sol, chuva, sol, chuva.

Irineu melhora. Consegue enfim se arrastar até a varanda. O choque: as pragas findas, mas o jardim mutilado. Entre a legião de cadáveres desidratados, as poucas sobreviventes, suas trágicas exuberâncias. Irineu murcha. Pasma. As mãos espalmadas sobre os ralos cabelos. O céu límpido, indiferente.

A noite pousa. Nos arranha-céus vizinhos, janelas insones.

O sol se esgueira pela basculante. Sentado à mesa da cozinha, Irineu come o pão do novo dia. A mão mecânica à boca, a mastigação bovina. Na varanda, pássaros pousam no parapeito. Espiam. Saltitam. Chilreiam. Recolhem gravetos para o novo ninho.

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Refogado

A semana começa com Vítor ligando cedo pela manhã em plena segunda-feira. Ele imerso em mais uma crise existencial-emocional-confusional, questionando a relação, se não seria melhor darem um tempo etc. etc. etc. Conversam por mais de hora. Simone ouve, pouco fala. Sugere uma pausa de uns vinte anos, para poderem avaliar com calma a situação. Ele se irrita, desliga.

Na terça Simone vai ao cinema sozinha. Come sozinha o maior balde de pipoca que o quiosque oferece. Ri sozinha na sala escura. Retorna sozinha à pensão. Dorme sozinha. Feito pedra.

Na quarta Vítor volta a ligar, como sempre faz. Simone ouve. Profere uma palavra oca aqui, outra ali. Não, não quer encontrar para conversarem. Desliga. Muito trabalho no restaurante, sem tempo. O dia zune. Tarde da noite, ela chega exausta na pensão. Dorme de uniforme.

Na saída do expediente da quinta, lá está Vítor de sentinela na mureta. A cabeleira preta, encaracolada, os ombros ossudos encolhidos. Olhar de cachorro querendo passear. Simone sobe na garupa da moto, rodam pela avenida Brasil. Param na Trípoli: dois kebabs da casa, dois guaranás. Silêncio. A noite no apartamento dele. Sexo.

Na sexta Simone não atende o celular. Dia dos Namorados, loucura total no restaurante. Por sorte tem uma pá de gente sozinha nesse mundo, seria ainda pior.

No sábado também não se encontram. Garçonete Simone de folga, enfermeiro Vítor de plantão. Ela perambula pela rua: praça, sorvete, shopping, livro na bolsa. Gasta o dia. Deitada na cama da pensão, não consegue dormir. Espinhos sob as pálpebras.

No domingo almoçam no apartamento dele. Reclinado sobre o fogão, Vítor prepara o molho. Simone atrás, na banqueta, vigia. Tão comprido, desengonçado, a linda cabeleira preta. A calça jeans surrada, os fundilhos caídos. A camiseta listrada que ela deu. Concentrado, move lentamente a espátula. Um cheiro doce, de tomate maduro, invade a cozinha.

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Sucesso

Tadeu, desempregado, assiste à palestra. Auditório amplo, lotado. O orador, baixo, calvo, os cabelos que restam lambidos para trás, caminha em círculos pelo palco. Terno e gravata sobrando no corpo franzino. Fala sobre as leis do sucesso. Gesticula, aponta. Ajeita os óculos sobre o longo nariz.

Mãos cruzadas sobre o colo, Tadeu pisca. Leis para o sucesso. Não sabia que existiam. Força a atenção, os olhos pesam. A cabeça fugindo, as contas em aberto: água, internet, a escola da Clara.

Networking, foco, autoconfiança, iniciativa, liderança, imaginação, entusiasmo, autocontrole, proatividade, carisma, visão, racionalidade, concentração, cooperação, tolerância, empatia. A legislação cresce. O palestrante fala, incessante. Gestos largos. Ajeita os óculos. As gotículas de suor brilhando sobre a testa.

Achava que leis eram outras coisas. Tadeu remexe-se na cadeira, desgruda a camisa da barriga. Gente demais, o ar-condicionado não dá conta. Olha em volta. Pessoal no celular. Uma moça na esquerda cochila. Nas filas da frente, uns caras anotando tudo. As mãos frenéticas. Proativas.

Quer sair dali. Mas chegou cedo, está sentado bem no meio, auditório abarrotado, fileiras estreitas. Vai ter que pedir licença para um mar de gente, acabar pisando no pé de alguém. Então fica. Pisca. Tira o celular do bolso.

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Cerrado em águas

A centena de dias sem chuva liquidou capim, grama, todos os rastejantes do mundo vegetal. Resignados à hibernação, aguardam, desidratados, melancólicos, as primeiras gotas, que tardam. Árvores de folhas que se manterão verdes, alimentadas por raízes profundas, pairam indiferentes à desgraça alheia. Para a ralé vegetal, o renascimento é sentimento longínquo. Ilusão catastrófica, típica de quem sofre: a chuva virá, como sempre vem. A glória verde retornará, alucinada, absurda. Milagre silencioso de todo santo ano.

Enquanto as gramíneas lamentam as águas de outubro que não chegam, os ipês competem. Quantas luxuriantes flores amarelas, roxas ou brancas pode um galho franzino suportar? Atletismo sem limites, mas nessa seara exagero nunca é mau gosto. Múltiplas copas explodindo em cor, olhares vidrados, boquiabertos. Esgotadas as forças, os ipês derramam suas cargas ao solo. Expressionismo sem pincel: o vermelho argiloso do chão, o ocre das folhas secas, tingidos de amarelo despudorado, roxo introspectivo, branco celestial. De fazer Van Gogh arrancar a outra orelha.

A chuva tarda, sábia.

No subsolo, entre raízes, os cantos estridentes que anunciarão as águas maturam. Brotarão do chão desidratado, escalarão com pernas trêmulas os troncos rugosos, romperão às dores suas armaduras de quitina. Voarão. Agarradas aos galhos despidos, as cigarras clamarão sem trégua pela sacra umidade. Tantos anos de espera sob a terra, a morte agora tão próxima, não é para menos. Quando as águas finalmente vierem, saberão que não libaram em vão. Por ora, tudo é angústia.

A chuva enfim desce. Começa incerta, tateia, depois jorra. Ensopa a grama, encharca as cigarras. Escorre pelos troncos indiferentes. O verde brota, invade o mundo. Monocromeia, monotoniza. Traz com ele o luto da flor.

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Máscaras

No sonho, ao final do plantão, quando Mateus tirou a máscara, seu nariz havia sumido. A boca também. Manteve a calma. Pudera, ponderou, passei a noite inteira sem respirar direito, correndo de um leito para o outro. O que a gente não usa, atrofia, depois some. Supôs o mesmo para a boca: não teve tempo de comer nada todo o plantão. Só podia dar naquilo.

Mas logo inquietou-lhe o futuro. Sem nariz, sem perfume? Luana adorava, tinha uma dezena deles, pedia sempre que tentasse adivinhar qual era. Nunca acertava, mas era tão bom… E tinha tanto prazer em comer sem freios depois de um plantão, enterrar as privações numa pizza tamanho GG, numa macarronada fumegante. Ah, o clássico bife à parmegiana do bar do Manoel… Sem boca, como faria?

Acorda, sobressaltado. Leva a mão ao rosto, apalpa. Plástico. Tubo. O enfermeiro mascarado pedindo que se acalme, que não toque o respirador.

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Dulcineia

Bastaram uns poucos meses morando com Dom Quixote para Dulcineia se dar conta do tamanho do equívoco. Deixara-se dopar por aquele par de olhos turvos, que a enxergam sempre divinamente bela. Não quer, nem jamais quis, beleza alguma. Deseja é plantar, colher, vender seus produtos orgânicos na feira ecológica de La Mancha. Seu corpo sempre foi instrumento, nunca fim.

Dom Quixote não entende, louva sem trégua seus atributos de musa, dedica-lhe poemas apaixonados — repletos de constrangedores clichês — todo santo dia. Declamados aos brados no quarto, na cozinha. Uma tortura. E Dulcineia ainda tem que conviver com aquela armadura medonha, sempre atirada pela casa.

Paz só tem mesmo quando ele sai campo afora com Sancho para as tais aventuras. Somem por dias a fio, uma bênção! Pela janela da sala, Dulcineia os observava encolherem no horizonte. Ele alto, magro como um poste. Sancho atarracado, as redondezas saltando das calças justas. Conversas gesticuladas, infinitas. Aqueles dois sim, talhados um para o outro.

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Labirinto

É o sebo mais antigo da cidade, muita coisa rara, garantiu o Lucas. Tenta lá.

Caminho pela Dom Pedro II, localizo a entrada. No umbral, a placa esmaecida: Caleidoscópio. Escada estreita, íngreme, mergulhando para o subsolo. Cheiro forte de mofo, rangidos a cada passo.

A sala pouco iluminada é ampla, pé-direito baixo, as torres de livros brotam desordenadas do parquê, tocam o teto. Há passagens para salas anexas. Espirro. Meus olhos comicham. Ninguém à vista. Esgueiro-me entre as prateleiras.

Pois não?

A voz é grave, de homem velho. Não o vejo.

Procuro Poemas de outono, de Afrânio Sampaio, digo.

Silêncio.

O livreiro surge de trás de uma das prateleiras. Baixo, grisalho, amarrotado. Coça a barba, pensativo. Murmura que talvez tenha, acha que lembra desse nome. Livros demais, memória de menos, diz.

Acompanho-o a uma das salas anexas. Ao fundo, uma grande massa de livros derramados. Espirro. Minha garganta formiga. Meus olhos ardem. Ele revira a pilha, inspeciona capas, os óculos se equilibrando na ponta do nariz. Talvez o vô Afrânio nunca tenha escrito o tal livro. Mentia muito, dizem. Inventava a própria vida. Versos declamados nas festas de família. Ecoam na minha cabeça, irrecuperáveis. O velho livreiro persiste. Meus olhos não param de lacrimejar. Minha garganta arde.

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Mandamento

Templo lotado, porta lateral entreaberta. O vira-lata ossudo hesita, enfia a cabeça, espia. Cruza a porta. Ladeia delicado as fileiras de fiéis. Olhar pio, suplica.

A menina percebe, puxa a barra da camisa do pai, aponta. Olha lá, tá com fome. O pai atento às palavras do pastor, repousa a mão sobre os cabelos escorridos da filha, afaga-os. Leva o indicador à boca.

Cale-se.

Ela franze a testa, espreme a pequena boca em angélico bico. Cruza os braços. Fustiga o pastor com seu olhar mais duro.

Vozes ecoam no templo. O pai ergue as mãos ao teto, cerra os olhos, murmura. A menina se esgueira, escapa trotando até o cachorro. Ele abaixa as orelhas, se deita, balança o rabo.

Afago. Afago. Afago. Cão feliz. Menina feliz.

Espia o pai. Ainda mãos erguidas, olhos fechados, agora fala alto, queixo pro teto, a barba grossa. O dinheiro do lanche no bolso do pai. O cão, a fome sagrada, os olhos úmidos de bicho bom. O rabo que balança, a língua caída pro lado. A pequena mão que afaga, que vai entrar e sair daquele bolso em um piscar de olhos.

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Omnibus

Rui sozinho na parada. Conta o tempo, reconta. Coça o nariz. Examina o chão. Ergue os olhos. A rua longa, sinuosa. Carros e motos serpenteiam, pra cima, pra baixo.

Nada do ônibus. Rui inspeciona as unhas, tamborila o jeans. Dois passos pra esquerda, um pra direita. Para. Olha. Coça o nariz.

Uma senhora chega à parada. Sorri, cumprimenta. O cabelo em coque. Vestido liso, verde, longo, a bolsa de couro firme debaixo do braço. O nome, Madalena, ela não chega a mencionar.

Enfim, glória ao Altíssimo, o ônibus nascendo lá no topo da curva. Descendo, decidido. Rui estica o braço. Madalena se apruma.

O grito do freio é de metal velho, abandonado. Pneus gastos, cansados, ônibus rodopiando. Rui abraça Madalena. Heroico? Carente? Jamais saberemos. Unidos pelo acaso, pelo descaso, fazem juntos a travessia para o reino das estatísticas.

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Nuvens

Entardece. Jogado na espreguiçadeira da varanda, ele navega o celular. Magro, camiseta branca sobrando, jeans roto. Pés descalços, se remexendo. Olhos grudados na tela, o rosto fresco, intocado pelo tempo. Franze o cenho.

Coça a barriga. Larga o celular. Senta, cruza as pernas, empina a coluna. Espreguiça os braços de homem pro alto, solta um colossal bocejo de menino. Deita-se de lado na espreguiçadeira, recolhe as pernas. Pega o celular, afasta os cabelos dos olhos com um safanão. Funga. Navega. Cobre a boca com a mão, balança a cabeça, ri.

O céu claro, nenhuma nuvem.

Virão.