Era meia-noite e José Ernesto, que estranhara os colchões duros de folhelho, ia enfim adormecer, quando uma larga e pesada bátega se abateu bruscamente sobre Paço-de-Loures. Estremunhado, levantou a cabeça da dura fronha de moinha, cheia de renda que o incomodara também, e ficou um momento, com os olhos arregalados na escuridão, a escutar o rumor de água despenhada que alargava os telhados, crepitava em torrente sobre a folhagem dura do laranjal. Depois, pensando na velhice daquele casarão do século XVI, desabitado, segundo afirmara o padre Ribeiro, desde 1850, acendeu a vela, espreitou, meio erguido, o teto negro de carvalho, no receio de algum buraco. Mas os velhos tetos almofadados pareciam sólidos, e José Ernesto acabou por soprar a luz, repuxar o cobertor, que ao deitar arrojara para os pés, acalorado com a ceia de cabrito, e o vinho das Pedras­Negras, e cerrou os olhos, no conchego que a chuva fora, agreste e ventosa, tornara mais doce, e onde se fundia o grande cansaço da sua jornada, naquele meado já quente de abril.

Mas não adormeceu – contrariado com aquela chuva de Lua Nova que podia pegar, e estragar a sua visita a Paço-de-Loures. E ao mesmo tempo, ante aquele rumor de invernia, surgindo em abril, pensava no estranho impulso que o levara, a ele, solteiro e sociável, amando as cidades, a comprar uma quinta, tão longe de Lisboa, numa região de serras e névoas. Era todavia um desejo bem antigo, já do tempo do liceu, quando vivia com o pai em Lisboa, no quarto andar duma rua barulhenta, tendo por único horizonte, um terreno vago, horrivelmente seco, todo de saibro e cascalho, entalado entre dois prédios, donde não via outro tom, que não fosse o de cal suja. De verão, sentia a poeira até nos travesseiros e nos lençóis – e sonhava com grandes árvores, cheias de sombras e de pássaros, com águas muito frias e muito lustrosas, transbordando de tanques de rega. Depois, em Coimbra, D. Patrício, seu companheiro de casa, falava perpetuamente no seu solar de S. Braz, e nas suas grandes avenidas de carvalhos, e na cascata, e nas roseiras e no mirante sobre o rio, onde se tomava o café. E já ele então pensava, no seu quarto, sobre os livros: – “Que diabo, quando for rico, hei de ter o meu S. Braz!”. Mais do que tudo, porém, certas impressões de leituras, sobre a Inglaterra, e a sua luxuosa e hospitaleira vida de campo, tinham desenvolvido nele o apetite de uma quinta, e de uma vasta casa, com muitos quartos, uma adega bem fornecida, onde ele pudesse receber os amigos alegres de Lisboa; e mesmo senhoras e presidir como um castelão, a jantares soberbos de leitão assado, depois duma caçada nas serras…

Enfim herdara, (como era certo) a fortuna do tio Bento, mas esquecera a quinta e a natureza, e a vida bucólica, na alegria de realizar outros sonhos, também vivos – a viagem pela Europa, e uma instalação de rapaz, estética, com carvalhos lavrados, e cadeiras de couro, colchas da Índia. Depois empatara, dois, três anos, na ociosidade de Lisboa, com um phaeton, uma cadeira em São Carlos, uma certa Michaela corista do Trindade, e uma paixão pela mulher do seu senhorio, na rua de S. Bento. Era uma bela rapariga, de raça italiana, loura ou pintada de louro, que tinha graça, sobretudo nas cartas que lhe mandava por uma preta e uma natureza amorosa, de rola em suave maio.

Aquele grande sentimento, ao fim dum ano, murchara naturalmente, como uma bela flor – e fora então que despertara nele o antigo desejo do campo, da quinta, e dos amigos hospedados, e dos jantares do leitão.

Justamente, então, por acaso lera nas Novidades, numa correspondência de Castelo Branco, a venda daquela quinta, com o seu nome sonoro de Paço-de-Loures, que ele se recordava de ter lido algures, num romance ou numa crônica. Na quinta, de resto, havia uma ruína histórica – capela ou torre. Pertencia a um fidalgo de Província, de que ele nunca ouvira falar, mas que tinha Dom, e apelidos infindáveis, com Noronha e com Alcoforado. Escreveu a esse senhor D. Gaspar – que lhe respondeu numa carta, bem torneada duma linda letra inglesa, propondo que ele visitasse Paço­de-Loures, onde o sr. padre Ribeiro o esperaria, para o hospedar, lhe mostrar a propriedade!… E como nesse momento, Lisboa lhe era penosa, – porque o marido dela, o senhorio, morava três ou quatro portas adiante de sua casa, – e às vezes vinha sem cerimônia almoçar com ele, – José Ernesto partira para o norte, para já quase decidido a comprar a quinta, àquele fidalgo amável e culto, que tinha um padre e com o tão lindo cursivo inglês. E, na estação, lá encontrara o sr. padre Ribeiro, procurador do sr. D. Gaspar, com dois cavalicoques e um para o conduzir ao Paço. Era ao escurecer, – e logo o caminho para a quinta lhe agradou, apesar de difícil, com os seus arvoredos, e rumor de água, um cheiro de prados de pomares. O casarão, pintado de amarelo, com uma grande varanda ou pórtico, que o ligava a uma velha ruína, tinha um belo aspecto senhorial, – e a ceia que preparara o caseiro era deliciosa. Só padre Ribeiro lhe desagradara, com seu pigarro, o seu cachaço nédio, e a desconfiança com que o olhava, por cima dos grandes óculos redondos, de aros de tartaruga. Parecia, além disso, horrendamente maçador – e a descrição que ele lhe fizera da propriedade, e da demanda que pesava sobre ela, e duma questão de águas com um vizinho, e os foros e a Igreja de S. Lucas, e os desgostos do sr. D. Gaspar, e os concertos feitos na tulha e no espigueiro, quase tornando a José Ernesto amargo o admirável vinho branco do caseiro. E a sua impressão, ainda antes de adormecer, depois daquele primeiro dia de campo, foi a do horror de um domingo de chuva, ali fechado, naquele casarão sem mobília, só, indefeso contra o padre Ribeiro…

Cedo, de manhã, o caseiro, o excelente Braz, veio bater timidamente à porta do quarto, anunciando a S. Exa. as oito horas e o movimento, de José Ernesto, foi logo o de escutar para os lados da janela. Chovia!

Desesperado, José Ernesto saltou do vasto leito de pau-preto, destrancou as grossas portadas das janelas – e verificou o desastre. Chovia! Por baixo dos vidros embaciados, verdejava vagamente a copa do laranjal, que parecia muito fundo, enterrado num vale; depois eram campos com arvoredos, colinas baixas, uma alvura de casario, tudo esbatido, meio diluído, em névoa. E dum céu confuso, todo em flocos moles de nuvens pardas, descia a chuva, lenta, direita, vagarosa, repousada e como estabelecida, assim para toda a eternidade.

– Que maçada! Que estúpida maçada!

E tudo logo em redor lhe pareceu imensamente triste; dum desconforto agreste, aquela cal branca das paredes, o soalho nu remendado, com tábuas mal aplainadas, as três cadeiras de palhinha, hirtas, estreitas, rígidas, que repeliam, e o lavatório com a pedra de lousa, com a sua baciazinha verde onde mal cabiam as mãos… Não, positivamente não lhe convinha aquele solar de nome sonoro! Maior a sua indignação, foi quando o caseiro veio dizer de fora da porta, que o sr. padre Ribeiro ia dizer missa na capela da casa às oito e só esperavam por S. Exa.! Valente descaro, o do sr. padre Ribeiro! E como sabia ou com que autoridade concluía o sr. padre Ribeiro, que ele fosse católico ou mesmo cristão? Justamente, havia ano que não ouvia missa – desde os primeiros entusiasmos com a mulher do senhorio, quando a farejava através de Lisboa, e todo o domingo, à espera dela, sentia grandes baques de coração, debaixo das acácias, diante da Igreja de Santa Isabel!… E agora aquele horrendo maçador do padre Ribeiro entrava assim familiarmente pela sua consciência, e impunha-lhe uma missa! Mas que fazer? Era hóspede, não podia escandalizar a devoção simples dos caseiros. E acabou de se vestir, furioso, com bons repelões à roupa e longos olhares, cheios de amargura, àquela chuva que caía, lenta e serena, como que regalada em cair.

Mas quando o caseiro, através de grandes salas, quase nuas onde nem o seu passo era sonoro, o conduziu à capela, à tribuna, à tribuna senhorial, com a sua grade de carvalho, com duas velhas almofadas de veludo verde, toda a sua irritação se calmou: sentiu mesmo o encanto em presidir assim, à devoção dos criados de lavoura, das raparigas do sítio, numa capelinha própria, diante duma Nossa Senhora que era como uma Deusa Doméstica, padroeira e amiga da Casa. Mesmo padre Ribeiro lhe pareceu menos horrendo, através do doce sussurro do latim, com a sua velha casula onde o ouro desbotado se esfiava. Duas ou três das raparigas, que não eram feias, com as suas grandes arrecadas, os lenços de merino, voltaram, para a tribuna, ao agacharem-se no chão, os olhos curiosos e negros. A elevação da Hóstia, com o fino e dormente tanger da campainha, o bater lento nos peitos, foi muito suave. Uma das almofadas, em que ele ajoelhava, tinha umas vagas armas bordadas. E José Ernesto pensou que havia muita beleza na antiga vida dum solar português. No entanto a chuva descia mais grossa, mais pesada sobre os telhados da capela. Depois, ao descer do altar, com o cálice na mão, padre Ribeiro saudou a tribuna e o hóspede.

– “No fundo, não parece mau homem” – pensou José Ernesto.

E foi muito amável, quando ele apareceu já com o seu enorme casaco e chapéu, na ala grande onde se ia servir o almoço, – porque a de comer tinha todas a vidraças partidas, e o soalho precisava conserto. Falaram logo da chuva. Segundo o caseiro era possível que estiasse, para o fim da tarde. Padre Ribeiro porém não acreditava. Ali naquela freguesia de Loures, caíam chuvas, como em nenhuma outra localidade do Reino…

– Lembro-me perfeitamente que em 1876…

E foi uma história medonha, que ele desenrolava com datas, com nomes, pousado e imóvel à borda duma cadeira, com as mãos cabeludas nos joelhos, os imensos óculos cravados no hóspede. José Ernesto terminou por não escutar, murmurando apenas ao acaso, com um vago sorriso: ah, ou é boa. E enquanto o padre Ribeiro desfiava a sua história, foi examinando a sala, atraído por três velhos retratos que pendiam das paredes, dentro de caixilhos a que a umidade e o tempo iam comendo o dourado. Um deles era o retrato dum rapazito magro, de grande nariz, com uma gola de renda sobre o gibão preto. O outro parecia um magistrado, pela toga de amplas pregas que o cobria e onde destacava, ainda muito vermelha, a Cruz de Cristo. Mas o que mais interessava José Ernesto, era o terceiro: uma bela rapariga, forte, com um sorriso bondoso que lhe punha duas covinhas nas faces e um bonito colo decotado, que o tempo tornara amarelo, mas que devia ter sido duma grande brancura. José Ernesto pensou mesmo, sorrindo, que os poetas do tempo decerto a tinham comparado ao leite e às rosas… Na mão de dedinhos aguçados sustentava uma rosa e toda ela dava uma vaga impressão de boa criatura, natural, salutar e pacificadora.

– De sorte que – ia contando o padre Ribeiro com as mãos apoiadas aos joelhos – estávamos aqui sem poder partir, e a chuva sem parar, zás, zás… Lembro-me bem de que a senhora Dona Manuela, que Deus haja, tinha nesse dia uma enxaqueca, e até se encostara nesse mesmo canapé em que Vossa Excelência está sentado. E era um domingo… É curioso, era também um domingo. Foi até o reitor de São Braz que disse a missa. Já lá vai coitado… Pois era rijo. Andava nos seus setenta anos e vinha da residência, aqui, que é bem uma légua, e uma légua larga, a pé. Tinha ele dito a missa, e estava sentado ali, à janela…

Felizmente o caseiro apareceu, atarefado, com a moça que trazia uma grande pratada de ovo frito – e no puxar da cadeira, atar o guardanapo ao pescoço, limpar bem o copo, e aliviar as vias do pigarro e considerar prazenteiramente os ovos, o padre Ribeiro deixou escapar os fios emaranhados da história da sra. D. Manuela e do velho Reitor de S. Braz. À mesa, o digno homem era um silencioso. E mesmo quando José Ernesto lhe perguntou se os retratos eram da família, padre Ribeiro deu apenas uma curta, rápida informação, para não espaçar as garfadas. O Desembargador, com a Cruz de Cristo era o sr. Jorge Manuel Vilhena, que fora Diretor das Alfândegas no tempo da sra. D. Maria II. A senhora era a filha, tia do sr. D. Gaspar. O menino pertencia a outro ramo, – aos Valladares da Guarda.

– Pois era um a bonita mulher, a tia do senhor Dom Gaspar! murmurou José Ernesto, que ficara defronte do retrato, e se continuava a interessar por aquela face meia desabrochada, com uns olhos pequenos e finos, tão doces no seu sorriso.

Depois dos ovos, apareceu um frango guisado – que José Ernesto achou delicioso. E aquela gostosa cozinha de província, que encantaria os amigos de Lisboa, quando ele os hospedasse – mas o impacientava contra a chuva teimosa que não lhe permitia visitar a quinta, – ter logo um a ideia das vantagens, dos outros prazeres rurais que ali esperava usufruir.

Não seria possível com guarda-chuvas, e tamancos, ir ao menos dar uma volta pelo pomar, até o jardim? Não senhor! Estava tudo encharcado – nem se podia apreciar a importância dos campos, da lavoura , a vista até Vila-Fria.

– É uma maçada!

O caseiro encolheu os ombros, foi olhar o céu. Padre Ribeiro atacara de novo o frango, em silêncio. E daí a instantes foi outro desastre. Ao tirar a cigarreira, José Ernesto encontrou nela um único cigarro, dos que fumava, cigarros turcos com tubo de cartão. E quando foi dentro, procurar à mala uma das caixas de que se fornecera em Lisboa, descobriu com terror, depois de revolver toda a roupa, que o seu criado em Lisboa se esquecera de as emalar! E ali estava, preso pela chuva dentro dum velho casarão, e sem tabaco! Felizmente padre Ribeiro fumava – um horrendo cigarro, “Ferreirinhas”, cheios de metano, que José Ernesto aceitou sucumbido.

Acesos os cigarros, foram percorrer a casa detalhadamente, até as adegas. Mas todo o interesse de José Ernesto, o prazer que ele se preparara de ir fantasiando a sua instalação, as obras a fazer, certos móveis a colocar, foi estragado cruelmente por padre Ribeiro, que em cada quarto parava, lhe narrava a história, e quem ali dormia, quem ali morrera, e os belos trastes que o ornavam nos tempos do pai do sr. D. Gaspar. Debalde José Ernesto queria seguir – ele retinha-o pelo braço com familiaridade:

– Um momento mais… É necessário que veja… Aqui nesta alcova, nasceu a senhora Dona Joana, a menina mais velha… Há ao canto uma porta de comunicação… Lembro-me até perfeitamente que nessa noite…

E a anedota brotava, espraiada e lenta. Numa das salas José Ernesto teve de escutar, a propósito dum conciliábulo político que ali se celebrara em 48, toda a história da Maria da Fonte. Adiante, em frente dum degrau de pedra que separava dois quartos, foi a história da queda que ali dera uma sra. D. Mafalda, e das aflições dele, padre Ribeiro, que tivera de ir pelo médico, à dez da noite…

– E chovia! Oh senhores! pior que hoje. Imagine Vossa Excelência, que estávamos muito sossegados a jogar o gamão, o senhor Dom Gaspar e eu…

José Ernesto sorria com uma resignação amarga. A cada instante dava um olhar através dos vidros… Chovia sempre, dum céu sujo, onde parecia não dever mais reaparecer o azul. As salas, desmobiliadas, mais tristes, naquela luz cinzenta e úmida. E ansiava por um cigarro – mas, no despeito daquela loquacidade que o enervava, não o queria pedir ao padre Ribeiro.

Assim chegaram ao famoso terraço coberto, que era a beleza e o luxo da casa, com os seus azulejos do século XVIII, e o seu grande horizonte, abrangendo três léguas de campos, os povoados, até às serras. Mas a chuva, agora mais forte, tudo esfumava, fundia, no vasto véu de água, e de névoa. Padre Ribeiro, todavia, de braço estendido, indicava os lugares, solares vizinhos, aldeias, as dependências da propriedade. Acolá era o sobreiral. Por trás dos sobreiros, além, aquela casa branca era dos Vilalvas. Depois, não via S. Exa. o muro? Era o cemitério da Freguesia. Mas José Ernesto já não escutava, sentado num banco, com os braços cruzados. Perdera todo o interesse pela casa, campo, que aquela chuva estúpida, a tagarelice do padre Ribeiro lhe tinham tornado bruscamente intoleráveis – e só antevia, se por acaso viesse ali habitar, longos dias de chuva e conversas fastidiosas, murmuradas com lentidão. Além disso, aquele casarão enorme, frio, que de noite devia ter ecos sinistros, não lhe convinha – e nem quis visitar o lagar, as adegas, pretextando cansaço, uma leve dor de cabeça que pedia repouso. Abalou para o quarto.

O caseiro justamente estava lá, com uma das moças, que fazia a cama.

– Oh senhor Braz, a que horas é amanhã o comboio?

S. Exa. tinha comboio à duas – mas se chovesse como hoje, S. Exa. não podia pensar em partir com as duas horas a cavalo até à Estação. E de carro, não se poderia ir? Não, não havia carro que se metesse àqueles caminhos. O governo há muito que prometera a estrada à Estação. Todos os anos, sobretudo em vésperas de eleições, apareciam os das Obras Públicas. Depois, não voltavam.

– “É inacessível, é horrível!” – pensava José Ernesto. E agora, só lhe restava pacientar, até que fosse possível a jornada para a Estação. Se ao menos tivesse um livro, jornais! Terminou por se estirar na cama. Mas o quarto enorme, e sem móveis, o grande silêncio, a luz tristonha, aquele cair lento e contínuo da chuva davam-lhe uma tristeza em que lhe era impossível a imobilidade. E saltou dos colchões duros, começou a passear, entre os quatro muros caiados, como uma fera na sua jaula. Terminou por abrir a janela para ao menos ter mais chegada a companhia da chuva. Daquele lado, a casa era muito alta, numa muralha lisa, a que se colava uma estreita escadinha de pedra, descendo para um laranjal, muito enterrado lá embaixo, e que parecia, sob a chuva e a névoa, cheio de sombra, e de umidade. Sentiu ódio, então, por aquela velha casa e teve, sem razão, o terror absurdo de adoecer ali repentinamente. Para sacudir esta ideia, saiu ao salão, mesmo com risco de encontrar padre Ribeiro, mas não havia ninguém – e ante outras portas que abriu, nos outros quartos que atravessou, era a mesma solidão. Teve então uma saudade pungente da sua casa de Lisboa, do ruído da tipoia, dos vizinhos, das ruas que o levavam, seguras e secas, ao club, aos amigos, à Avenida. Voltou ao terraço – e ali ficou, encostado à varanda, vendo tristemente chover. Mas como estranhamente, a seu pesar, os seus olhos voltavam-se sempre para aquele muro branco, que lhe mostrara o padre Ribeiro, que era o cemitério. Como avistar, àquela distância nem o campo dos mortos se diferenciava, naquela névoa que tudo envolvia, dos campos de lavoura, parecia ao pobre José Ernesto que o cemitério era imenso, – e que a casa estava toda cercada por um cemitério, e que era ela mesma um jazigo! E o morto? Onde estava o morto? Impaciente com esta absurda ideia abandonou o terraço, errou pelas salas, reentrou no quarto, recomeçou o passeio de fera, e não tolerando mais a solidão nem a falta de tabaco, cedeu, vencido, foi procurar padre Ribeiro. Podia, para lhe evitar a loquacidade, propor uma partida de bisca, se houvessem cartas.

Uma criada que arrumava louça na sala disse que o sr. Padre Ribeiro estava no quarto – e José Ernesto foi bater humildemente à porta do sacerdote.

– Oh senhor padre Ribeiro, tem paciência… Passa-me um cigarro.

O padre abriu logo, em mangas de camisa, com a pena na mão. Estava a escrever – mas convidou o hóspede a entrar, e puxando para a janela uma velha poltrona de couro, abriu a gaveta da mesa onde tinha os cigarros.

– Acabe a sua carta, senhor padre Ribeiro…

O outro teve um gesto amável. Estava a escrever por ociosidade. Tinha muito mais gosto em fazer companhia a S. Exa. Era uma pena, era uma pena aquela chuva, porque se podia ter empregado o dia em visitar a quinta. Se ele ao menos tivesse a planta! Mas não. Estava no cartório em Vila-Fria.

– Há muito que o senhor padre Ribeiro é procurador destes senhores?

– Trinta e três anos. Vi casar o senhor Dom Gaspar e vi nascer as três meninas. Eu lhe conto como conheci o senhor Dom Gaspar, que é curioso. Tinha eu ido passar o entrudo a Castelo-Branco…

E aí brotou outra história torrencial. E tão profundo era o tédio e a solidão de José Ernesto que se interessou logo por aquelas três meninas, esperou com paciência, para as conhecer, que o padre Ribeiro errasse na sua espalhada narração, pelos tempos em que o sr. D. Gaspar ainda era solteiro. Por fim como ele se alastrava muito sobre as virtudes da sra. D. Constança que Deus houvesse, mulher do sr. D. Gaspar, ele puxou o padre para os tempos presentes, desejou saber se o sr. D. Gaspar era velho.

– O senhor Dom Gaspar tem, em dezoito de setembro, cinquenta e seis anos. Parece mais por causa da grande barba, toda branca. Mas aquilo é de família. Aos quarenta anos começam a embranquecer. A menina mais velha, a senhora Dona Maria Augusta, tem até uma mechazinha branca sobre a testa. E faz vinte e sete anos em setembro, como o pai. E dá-lhe graça, a mecha, dá-lhe muita graça…

Então, para obter mais detalhes, José Ernesto de repente passou as mãos pela face, como no esforço duma recordação, e declarou que na realidade conhecia muito o sr. D. Gaspar e as meninas. Tinham estado em Lisboa, não é verdade?… Não, nunca tinham ido a Lisboa. Então fora no Porto! Sim, havia dois anos, tinham passado um ou dois meses no Porto.

– Justamente, – exclamou José Ernesto. – Estou muito bem lembrado. No Palácio de Cristal, todas três, com um velho de barbas brancas, alto, forte. E as três senhoras altas também…

O padre Ribeiro corrigiu. A mais nova, a sra. D. Maria Joana, era alta; as outras duas, porém, eram antes baixas. Ele tinha as medidas de todas em centímetros. Não se recordava o número exato, mas a sra. D. Maria Joana era o que se costuma chamar uma senhora alta, uma bela senhora.

– Sim, – acudiu José Ernesto. – Havia uma mais alta. E trigueiras todas… Quero dizer, cabelo escuro!

O procurador emendou, com enorme gravidade, este erro histórico. Não, não! Então não eram elas! As duas meninas mais velhas, com efeito, tinham o cabelo escuro, como o pai em moço. Mas a sra. D. Maria Joana era loura. Oh, muito loura! Exatamente como a sra. D. Constança. Mesmo mais loura!…

– É uma cor notável! Porque, quer Vossa Excelência creia ou não, o cabelo da senhora Dona Maria Joana, ao sol, reluz como ouro! Às vezes, no jardim… O cartório tem janela para o jardim, e a minha banca fica justamente ao pé da janela. Pois, meu caro senhor, às vezes, ela anda no jardim, lá a tratar das suas flores, e passa assim entre duas árvores, toca-lhe uma réstia de sol, e é, ainda que se não deva misturar, o sagrado ao profano – eu lembro-me sempre, é uma auréola de santa… Ouro! Ouro puro!

E como José Ernesto sorria na ideia de todo aquele ouro aceso pelo sol, entre as rosas, num velho jardim de província – padre Ribeiro acrescentou, como cedendo a uma verdade forte:

– Justiça seja feita àquela menina, lá pelo que toca o rosto, e feitio, é digna de ser admirada, em toda a parte. Lá nesse ponto, não há senão louvar.

E como havia aqui um a reserva – José Ernesto, – já curioso, puxou mais a cadeira para o pé do padre Ribeiro, murmurou com um sorriso, familiaridade, um brilho nos olhos:

– Vejo então que a senhora Dona Joana não é a sua predileta, senhor padre Ribeiro.

O padre Ribeiro protestou. Oh ele gostava de todas igualmente! E como não seria se andara com todas ao colo!

– A senhora Dona Joana, é verdade, tem lá suas ideias… Mas é boa menina. É também muito boa menina.

Agora, vivamente interessado, José Ernesto desejaria conhecer “as ideias” da sra. D. Joana. E pedindo outro cigarro ao padre Ribeiro – estranhou que ela, e as outras duas, não tivessem casado. Mas o loquaz padre Ribeiro teve apenas um Hê! hê! discreto e vago. E houve mesmo um silêncio, em que padre Ribeiro, remexendo no tinteiro, deitou por cima dos óculos um olhar à carta que interrompera.

– Oh senhor padre Ribeiro, continue a sua carta! – acudiu discretamente José Ernesto. – Que horas são? Quatro e meia? Eu vou também um bocado para o terraço, tomar ar. Que dia este, hein? Parece dezembro, com semelhante negrura.

Com efeito havia já um a tristeza de crepúsculo. E a chuva caía, mais lenta, mais grossa, com um rumor que parecia desolado, e invernoso, e agreste, naquele declinar da luz. Do terraço, onde ele fora acabar o cigarro de padre Ribeiro, apenas se via o extenso véu de chuva, que tremia, tudo fundia, num a névoa igual, e fria, até a colinas de Vila-Fria. Sentado num banco, ele olhava a chuva, escutava a chuva. E já se não sentia tão só, agora, com aquelas figuras que tinham surgido, no meio do seu tédio, e que tinham tomado relevo e realidade – o sr. D. Gaspar com a suas barbas brancas, a sra. D. Joana com seus cabelos de ouro. Não conhecia ninguém em Lisboa que tivesse cabelos de ouro. E que ideias dela seriam essas, que tão evidentemente desagradavam o padre Ribeiro. Toda aquela família, e os seus hábitos, e os seus negócios, o interessavam agora e pela primeira vez pensou nos motivos que levariam o sr. D. Gaspar a vender o “Paço”. Dívidas decerto, uma administração de fidalgo, desleixada e confusa. E todavia aquele casarão, reparado, com mobílias simples, cretones, podia ser uma doce vivenda. Se ele a comprasse havia de ornar toda aquela varanda do terraço com rosas trepadeiras. Mas a solidão – sobretudo com a chuva!… O campo na verdade só é agradável com família, e toda árvore é triste se na sua sombra não brinca uma criança.

Um rumor na porta envidraçada despertou José Ernesto. Era o caseiro que vinha saber a que horas S. Exa. queria jantar.

– Quando o senhor padre Ribeiro quiser… À seis… Eu já tenho apetite.

– Efeitos dos bons ares – considerou o caseiro, sorrindo, com a mão encostada à ombreira da porta. A grande pena era a chuva, por não poder S. Exa. visitar a propriedade, estender um lindo passeio até ao Mieiro, a ver a queda de água. Que a chuvazinha era necessária, com a terrazinha assim tão sedenta. Mas talvez estiasse. E a quinta era digna de se ver.

– O senhor Dom Gaspar nunca cá vem? – perguntou José Ernesto.

O sr. D. Gaspar já não vinha ao Paço havia quatro anos. A última vez que por ali aparecera fora de fugida, com a sra. D. Joaninha, durante três dias.

– As meninas não gostam de cá estar no Paço?

O caseiro sorriu. A falar a verdade, a casa agora, assim sem trastes, não era muito de convidar. Que a sra. D. Joana, essa não se importava. Era senhora sendo necessário para dormir em cima duma cadeira. Contanto que tivesse, de manhã cedo, água para chafurdar, estava bem. Nessa ocasião em que estiveram no Paço, até se lhe tinha subido para o quarto uma dorna. E água fria. Era de arrepiar. Mas aquilo, era senhora muito forte.

– É uma que é loura, não é verdade? – perguntou ainda José Ernesto.

– Loura como milho… Ah, muito vistosa, muito vistosa. Quando aí esteve, era pelo São João, houve uma grande fogueira, veio para aí a raparigada dançar… A senhora Dona Joana vestiu-se de lavradeira… Parecia um sol!

– Bonita , hein?

O caseiro imaginava que não podia haver outra mais bonita nem em Lisboa! E alegre! E dada! Que as outras meninas, também eram boas menina… Mas a sra. D. Joana era um sol.

– Que idade tem ela ?

– Isso não sei dizer a Vossa Excelência. É novinha, é novinha! Ora agora avantaja muito, com aquele bonito feitio, e assim forte! Como ela fica muito bem, é a cavalo. É grande cavaleira.

José Ernesto, olhava vagamente, sorrindo. E depois dum silêncio:

– Pois isto por aqui há de ser bonito quando não chover.

– É muito bonito. O terraço aqui é uma alegria, com a vista toda, até Vila-Fria. E mesmo a quinta, lá para baixo, para o rio… Tudo é bonito. Tudo é bonito!

– A pena é ser tão longe ela estação.

De verão era até um lindo passeio. Mas quando vinha a inverneira, era longito, era longito. Enfim, a estrada estava traçada – e passava além, ao pé da carvalheira, que S. Exa. não podia ver. E quem tivesse influência com o governo, arranjava a estrada.

José Ernesto pensou em amigos seus que tinha em Lisboa, políticos, e influência. E de repente, com outra ideia:

– Quanto tempo se leva daqui a Vilalva à casa do senhor Dom Gaspar?

Para a casa do sr. D. Gaspar tomava-se o comboio da manhã e parava-se na estação de Quintans; dai era meia hora a cavalo. A casa do sr. D. Gaspar ficava mesmo à entrada da Freguesia. Umas quatro horas de caminho.

– E é bonita a casa do senhor Dom Gaspar?

Oh essa não lhe faltava nada. Uma casa nobre, com capela, belo jardim, um lago com cedros em volta…

Mas vendo que José Ernesto abotoava o jaquetão, – o caseiro receou que S. Exa. apanhasse umidade. Era melhor recolher, quanto mais que caminhava para as seis… E ele ia dar uma volta pela cozinha, a ver como as suas raparigas marchavam com o jantarinho.

José Ernesto então voltou ao seu quarto, onde ia escurecendo, acendeu a vela, e começou a passear, bocejando, numa indecisão, que o tomara de repente sobre a sua volta a Lisboa. Era estúpido, decerto, ficar ali encerrado naquele casarão, à espera dum bocado de céu limpo e seco, que o deixasse visitar a quinta e os arredores. Mas também, partir para Lisboa, depois daquela imensa jornada, que assim lhe ficava inútil, sem sequer ter dado uma volta, feito uma ideia da quinta, talvez excelente, e realizando bem o seu sonho de campo? Era absurdo. E ao mesmo tempo, a volta tão rápida a Lisboa, já o enfastiava, antevendo a Avenida cheia de pó, o club à noite, com os rapazes a bocejar pela poltronas, e o seu senhorio, risonho de lunetas azuis, aparecendo logo de manhã para o abraçar e “almoçar sem cerimônia”… E ao mesmo tempo, ia sentindo, apesar daquela infelicidade da chuva, um a vaga atração pela aldeia, e o silêncio dos campos, e a cozinha gostosa, e essas festas alegres e simples, com fogueira, em que as fidalgas se vestem de camponesas… Para a sua saúde mesmo, lhe convinha passar umas semanas ao verde, como um cavalo cansado. E enfim, que diabo, a compra duma propriedade, que lhe custava doze contos, não se podia assim atabalhoar em horas, sem um exame das terras, uma boa experiência da compatibilidade com o campo e uma conferência mesmo com o sr. D. Gaspar, para ressalvar bem os seus interesses. Na verdade, o sr. D. Gaspar é quem devia ter vindo ao Paço: – “Vossa Excelência – dizia o procurador, – vê, examina, e depois entende-se por carta com o senhor Dom Gaspar!” – Não! Cartas nunca definem bem negócios. É indispensável, quando se trata de doze contos, cavaquear, repisar, combinar… Evidentemente ele devia ver o senhor Dom Gaspar…

E foi quando ele ruminava esta nova ideia, que padre Ribeiro lhe veio bater à porta do quarto, perguntando se S. Exa. estava pronto para o jantarinho.

– Entre, senhor padre Ribeiro, pode entrar.

Padre Ribeiro vinha esfregando devagar as mãos – e declarou que o tempo tinha arrefecido.

– Ou será – acrescentou rindo – que o estômago está pedindo o calorzinho das sopas?

– Pois a elas, senhor padre Ribeiro, a elas!

Mas o procurador espalhava um olhar pelo imenso quarto, onde o leito, com a coberta branca, mais alumiado pela luzinha da vela, parecia perdido na vastidão do soalho, e do teto negro! S. Exa. não tinha ficado muito bem acomodado, não! Mas assim de repente, com a casa desmobiliada, e longe da cidade…

– Estou perfeitamente, – acudiu José Ernesto, e com sinceridade. – Pelo contrário. Até me soube bem esta largueza… A gente, em Lisboa, naqueles cubículos, morre sufocada.

Padre Ribeiro sorriu com amizade:

– Pois então é vir para cá, para a província… Olhe, largueza tem. E bons ares. E o que se come é são.

Está claro, não há os regalos da Corte, e os teatros, e essas sociedades que os jornais contam…

E como José Ernesto encolhia os ombros, rindo, como no desdém e no cansaço desses regalos, padre Ribeiro deu com inteira franqueza, a sua opinião sobre as cidades:

– Cidades são pedreiras. Muita pedra, muita parede. E gente demais, anda-se aos encontrões, tudo é cerimônia, não há a rica liberdade. Eu lembro-me muito bem, quando vivia em Lamego… Lamego tem recurso… Pois hoje ninguém me pilhava em Lamego. Olhe, sabe o que não cansa? É uma pessoa abrir pela manhã a sua janela e respirar o cheiro da verdurinha, e ouvir a passarinhada, e descer, em chinelas para debaixo da sombra, e estar ali, muito quieto, com Deus… Hoje ninguém me pilhava em Lamego.

– Também, o senhor padre Ribeiro, agora, está afeiçoado ao senhor Dom Gaspar, à meninas…

Mas o caseiro entreabriu a porta, anunciando a sopa. E quando entrou na sala, José Ernesto teve uma sensação de conforto, e de apetite, diante da pequena mesa, nessa noite mais bem alumiada, com a toalha muito branca, o prato de azeitonas lustrosas, as duas canecas onde o vinho ainda tinha espuma. A sua cadeira era a de braço. A chuva cantava fora mais pesada. E a sopa recendia.

E terminou por esfregar também as mãos, e exclamar, rindo:

– Agora, neste momento, é que não importa a chuva. Até sabe bem ouvi-la cair lá fora.

E o caseiro, com um brilho no olhos:

– E a terrazinha vai bebendo, que bem o necessitava.

Todos três sorriam, contentes: o jantar estava delicioso, dum sabor cheio de relevo, com o cheiro gostoso dos petiscos do campo – e José Ernesto, enchendo o copo, pensava como uma face, uns cabelos de mulher, ali, na luz, entre as louças claras, tornariam encantadora aquela sala, com a chuva a cantar no laranjal.

– Esta casa deve ser antiga – considerou ele, desafiando agora, com prazer, a loquacidade de padre Ribeiro.

O procurador acudiu logo, contando que existia no cartório um velho pergaminho, relativo a uma compra de terras para o lado do rio, que tinha a data de 1412.

– É bonito! – murmurou José Ernesto com respeito. – Começo do século XV. Ainda existia o Império Romano do Oriente.

E isto foi motivo para que padre Ribeiro desenrolasse a genealogia do sr. D. Gaspar. Ela era ilustre. Mergulhava as raízes nas invasões godas, lançava ramos por todos os Reinos das Espanhas e havia nela Santos com auréolas. O sr. D. Gaspar era o décimo sexto morgado das Quelhas. Um outro D. Gaspar antigo trazia o estandarte real na batalha de Navas de Tolosa…

José Ernesto, que escutava, muito interessado, terminou por dizer, deitando a cabeça para as costas da cadeira, e passando a mão pelo cabelo:

– É ainda um a boa coisa, um bom sangue…

– Pois melhor do que este, meu caro senhor, não o há no Reino. E olhe que a raça, apesar de ser velha, ainda é forte. O senhor Dom Gaspar, há dois ou três anos, ainda vergava um cano de espingarda. E nunca vi entrar o médico naquela casa.

José Ernesto exclamou quase entusiasmado:

– Isso é tudo! A saúde é o essencial, numa família, numa raça. Aquelas mulheres, em Lisboa, parecem que se desfazem, que se andam a dessorar. Se ao menos aquela fraqueza fosse compensada pelo requinte, o afinamento da natureza. Mas qual! São doentinhas e tolinhas.

Estava realmente excitado, e o procurador sorria satisfeito, remexendo a salada. Sim, as senhoras de Lisboa eram enfezadinhas… Más comidas, más águas!

Mas o caseiro, que entrava com um a garrafa especial de vinho do Abade de Carmelinde, anunciou que a chuva tinha parado e havia mesmo um boca do de céu limpo. Então foi uma grande esperança – e o delicioso vinho do abade foi bebido entre planos para a visita à quinta e aos arredores, no dia seguinte, logo de manhã cedo. Mas o caseiro e padre Ribeiro não concordavam: – um queria que se partisse direto ao Mexieira, e se entrasse pelos Carvalhos, de modo que S. Exa. fizesse primeiramente uma ideia de toda a freguesia – o outro preferindo que S. Exa. primeiro visitasse a quinta, a começar pelo campo do Costa, e depois fosse ao Cerejal, onde tinham os cavalicoques, para ir fazer o lindo passeio até S. Braz. Ambos, porém, asseguravam a S. Exa. que havia tempo de visitar tudo e tomar o trem à seis horas para o Porto.

José Ernesto, porém, não respondia, torcendo o bigode. Aquela partida para o Porto, e daí para Lisboa, que o separava por uns poucos de meses do Paço, mesmo quando se decidisse a comprá-lo, pareceu-lhe de repente brusca e desagradável. Era como se de repente o arrancassem de ao pé de não sei que de vago, e de real, que o estava interessando, e acordando a curiosidade. Necessitava realmente estudar, conhecer melhor aquela região. Gostaria de se demorar, vaguear uma semana, por aqueles arvoredos e vales. Depois dum silêncio, de repente, perguntou se não havia um hotel em Vila-Fria. Padre Ribeiro e o caseiro sorriram:

– Em Vila-Fria? Nem um catre para um trabalhador!

Então José Ernesto, que findara o café, foi à janela. E com efeito, não havia rumor de chuva benéfica. Os campos repousavam sob a paz da noite, saciados, e mudos.

Acabando o cigarro, foi sentar-se no canapé de palhinha – e o serão começou por um longo silêncio, entre ele e o procurador, que ficara na sua cadeira, com os cotovelos encostados à mesa, num repouso e sonolência de digestão, que lhe cerrava, irresistivelmente, as pálpebras grossas.

– Se houvesse um baralho – disse, por fim, José Ernesto – podíamos jogar uma bisca.

O procurador abriu os olhos, sorriu, fez: he, he, de novo as pálpebras se lhe descaíram, pesadas e dormentes. E José Ernesto terminou por se estirar no canapé – e pensava na sua volta a Lisboa, com tédio. A sua vida em Lisboa, agora que a via, assim de longe, dentre aquele silêncio de aldeia, no seu conjunto, ela parecia-lhe intoleravelmente vazia e estéril. Que era ele? Um cavalheiro com uma boa fortuna em inscrições e prédios. Um dia em cada trimestre recebia a sua renda do Estado e do inquilino, e todos os outros trezentos e sessenta e um dias os passava gastando essa renda, em comer, passear, atos de instinto, exatamente como os do seu cão! Atos de inteligência, de uma humanidade superior eram só algum livro folheado à noite, para adormecer, dum bocado de bluff no club, uma ou outra contradança no inverno, e parar, no Chiado, diante de algum amigo para murmurar “que há de novo?”. Não era realmente uma existência humana. E sobretudo, duma tão grande solidão! Amigos, parceiros, as damas que contradançavam, eram na verdade, para ele, como sombras, – aparências – e quando por acaso se constipava e tinha de ficar em casa, todas as sombras se dissipavam e para ele não existia o mundo nem sociabilidade humana. Decerto, podia casar, tinha como todos os homens de casar. Mas com quem? Ele exigia tanto numa mulher – a beleza! a alegria! a saúde! a bondade! a simplicidade! E depois ainda princípios sólidos para que o seu lar fosse honrado! e depois ainda uma raça antiga porque “no fundo, é uma boa condição”. Onde estava, por acaso, essa maravilha?

Padre Ribeiro, que havia instantes ressonava, teve um ronco tão forte que despertou. E endireitando-se na cadeira, depois de pedir desculpas a S. Exa., – o seu primeiro cuidado foi ver se chovia. Não, com efeito, o céu limpara, prometia um dia claro. De modo que o que lhe parecia razoável, visto terem a esperança de madrugar e de visitar a freguesia, era se retirarem aos lençóis. E ele mesmo arranjou a vela de José Ernesto, que acompanhou, ainda estremunhado e bocejando até à porta do quarto.

– O senhor padre Ribeiro, lá em Simbres – dizia José Ernesto pelo corredor – deita-se cedo, deitam-se todos cedo.

Sim, com efeito, em Simbres estava tudo recolhido. Só a sra. D. Joana é que tresnoitava.

– Passa às vezes da uma hora da noite, e ainda está na sala, sozinha, a ler! E a casa toda apagada! E não tem medo! Enfim, cada pessoa tem lá os seus hábitos, e as suas ideias.

Estavam à porta do quarto, ambos com as velas na mão – e então José Ernesto, rindo, e com imensa familiaridade, acusou padre Ribeiro de pouca predileção pela sra. D. Joana.

O procurador arregalou o olhos, quase ofendido:

– Ora essa! Isso seria ingratidão! Ih, Jesus! Sou tão amigo dela como das outras meninas…

José Ernesto ria, gracejava:

– Isto era brincadeira, senhor padre Ribeiro! Mas como tem falado já das ideias da senhora Dona Joana como se fossem singulares…

Padre Ribeiro concordou que nem sempre apoiava as ideias da sra. D. Joana:

– Olhe, por exemplo, divergimos em política…

– Em política?

– Eu lhe digo… A senhora Dona Joana tem ideias muito livres. Chega a ser republicana! Para ela todos são iguais! Não há fidalguia nem povo. Eu também sou liberal. Mas enfim há hierarquias. E Vossa Excelência, por exemplo, não aperta a mão ao seu criado…

– Nem a senhora Dona Joana!…

– Muito capaz disso, meu caro senhor, muito capaz disso.

– Mas enfim, não casaria com o criado – exclamou José Ernesto, rindo sempre, com o mais vivo interesse por aquelas confidências.

E padre Ribeiro encolheu os ombros. É que não sabia se ela não casaria com o criado .

– Acredite Vossa Excelência que não sei. Muito capaz disso!

Quero dizer, não casa porque o criado não chegaria lá às alturas que ela fantasia. Mas se chegasse! Olhe que tem perdido já dois casamentos soberbos. Então o último, com o fidalgo da Avelã, lá nosso vizinho, nem se compreende! Um bonito rapaz, com belas propriedades! Mas então, não o achava esperto. Declarou ao pai, que o rapaz era um sensaborão, e nada! Está claro, o fidalgo da Avelã não é homem de livros. Mas eu não sei por quem ela espera!

Tornou a encolher os ombros:

– Enfim tem lá as suas ideias. Mas é uma perfeição de menina, e Deus há de fazê-la feliz. Não será por falta de eu lho pedir!… E aqui ficamos de palestra, com os castiçais na mão. Tenha Vossa Excelência muito boas noites. Às seis cá o mando acordar.

José Ernesto entrou no quarto, foi pôr devagar o castiçal sobre a mesa: – e ficou, encostado à beira da cama, perdido em pensamentos vagos, com os olhos na luz. A solidão da sua existência voltava de novo a aparecer-lhe, muito nítida, com uma forma quase material, dum grande descampado, onde era sempre crepúsculo. E ao mesmo tempo sentia um desejo vago ele ficar ali, muito tempo, naquela aldeia, onde todavia a solidão lhe seria mais profunda e real. Quando se deitou, suspirava, sem razão com um vago enternecimento. E antes de adormecer, na escuridão do quarto, via passar, fugir, o brilho duns cabelos de ouro que corriam num jardim.

Às sete horas, o caseiro bateu à porta do quarto. Ele gritou de dentro, estremunhado:

– Então?

– Sabia Vossa Excelência que está chovendo, e a valer…

José Ernesto escutou. A chuva caía despenhada sobre o “Paço”.

Quando José Ernesto dali a pouco apareceu na sala, padre Ribeiro que esperava, plantado tristemente à janela, abriu os braços, desolado:

– E então que me diz Vossa Excelência a esta infelicidade? Em fins de abril!

José Ernesto hesitou um instante, com um leve rubor na face; depois, olhando também o céu fusco, as longas cordas de água:

– Tenho estado a pensar, senhor padre Ribeiro, e eis o que me parece mais razoável. Este tempo não melhora. Eu também não posso voltar para Lisboa sem ter visto a propriedade e tomado uma resolução. Mas como já aqui estou e a jornada a Vilalva não é grande, acho que o mais razoável é ir durante estes dias de chuva conversar diretamente com o senhor Dom Gaspar, porque a gente por cartas nunca se entende; assentamos bem as nossas condições, e depois, em aliviando o tempo, volto por aqui, e visito a propriedade e o sítio com o amigo Braz. Que lhe parece?

O padre Ribeiro esfregava as mãos lentamente:

– Acho muito bem… Acho muito bem! O senhor Dom Gaspar há de estimar muito… Eu não posso oferecer a casa, que não é minha, mas Vossa Excelência, na tia Rita, está perfeitamente. Eu falo com ela… Eu tinha hoje aí o carro para voltar… Acho muito bem.

– Podemos partir depois do almoço.

– Como Vossa Excelência quiser. O senhor Dom Gaspar há de ter muito gosto. Estamos lá aí por volta das quatro horas. Acho muito bem.

José Ernesto voltou logo ao quarto, cantarolando, a arrumar a maleta. Depois, foi percorrer com o padre, outra vez, o Paço todo, até à adega. Mas agora já se detinha nas salas, estudando consertos, tabiques que deitaria abaixo – fez mesmo planos de mobílias. Quando vieram almoçar, era como se fosse já o dono do Paço, e declarou mesmo que faria ali a sala de jantar.

Ao meio-dia, a chuva cessou; e imediatamente o Braz propôs uma visita, pelo menos até ao rio, pela avenida dos carvalhos. Mas José Ernesto recuou, – não valia a pena, encharcarem-se até aos joelhos, receber talvez uma impressão desfavorável, quando daí a dois dias, ele viria fazer então a visita completa e repousada. De resto, o cocheiro instava que marchassem para aproveitar a aberta.

José Ernesto, alegre e ligeiro, levou ele mesmo, apesar das exclamações do caseiro, a sua maleta para o carro. Então o Braz pediu que esperassem, para ir buscar umas poucas de rosas, duma bela roseira, de ao pé do tanque, que o sr. padre Ribeiro levaria às meninas. O ramo foi acomodado dentro dum cesto, e José Ernesto tirou uma pequena rosa que pôs ao peito.

Depois, ao largar a traquitana, pela grande estrada, que ali subia, toda em encostas, José Ernesto perguntou:

– Como é o nome todo do senhor Dom Gaspar?

– Dom Gaspar Maria Alcoforado de Menezes e Telles.

A chuva cessara de todo, e havia um bocado de céu azul.

***

Quando a carruagem ia entrando em Vila-Fria, ao passar no cruzeiro, com um bocado de sol, entre nuvens, padre Ribeiro teve um sobressalto, olhou a portinhola, gritou para o cocheiro parar:

– São as meninas! É o senhor Dom Gaspar!

E com efeito, junto do cruzeiro, ia caminhando um homem, de grandes barbas, de chapéu desabado, com uma senhora coberta por uma longa capa ligeira de borracha. Padre Ribeiro saltou da tipoia – e ali mesmo, na estrada, fez a apresentação do hóspede. E José Ernesto reconheceu a sra. D. Joana pelos magníficos cabelo louros. Era alta, dum branco saudável e doce, com belos olhos verdes, finos e meigos.

Padre Ribeiro mostrou logo o cesto de flores. Ela tirou uma rosa que pôs na casa do botão do casaco. José Ernesto ia conversando com o sr. D. Gaspar, caminhando a pé para a tia Rita, que era logo adiante do cruzeiro, nas primeiras casas da vila. Depois, quando ela se acercou – o velho voltou-se para dar uma ordem ao cocheiro. Joana e José Ernesto ficaram um momento sós na estrada.

Tinham ambos, ao peito, rosas da mesma roseira.

***

Seis meses depois casavam – por uma manhã também de grande chuva.