O decamerão, coleção de cem narrativas escritas por Giovanni Boccaccio, marca o início do realismo na literatura ocidental, pois se afasta do modelo medieval, no qual o divino e o espiritual imperam, e o substitui pelo domínio da natureza e dos valores terrenos. Sete moças e três rapazes, fugindo da peste que assola a Europa, refugiam-se em uma casa de campo perto de Florença. Para passar o tempo, resolvem contar histórias uns para os outros. Sucedem-se então dez jornadas de narração, com dez histórias cada. Em tom narrativo que mistura comédia e crítica, as histórias são recheadas de amor, sexo, traição e críticas ao comportamento dos padres.

O AUTOR

Nome

Giovanni Boccaccio

Nascimento

1313, Certaldo, Itália.

Língua

Italiana

Sobre Giovanni Boccaccio e sua obra

O LIVRO

Título

O decamerão

Tradução

Raul de Polillo

Editora

Itatiaia

Contos

 

PRIMEIRA JORNADA: PAMPINEIA

PRIMEIRA NOVELA. O Sr. Ciappelletto, com uma falsa confissão, engana um santo frade e morre. Tendo sido péssimo homem em vida, é reputado santo na morte, passando a ser chamado São Ciappelletto.

SEGUNDA NOVELA. O judeu Abraão, instigado por Giannotto di Civigni, vai à corte de Roma. Vendo a maldade dos clérigos, regressa a Paris, onde se torna cristão.

TERCEIRA NOVELA. O judeu Melquisedeque elimina, com uma narrativa de três anéis, um grande perigo que lhe fora armado por Saladino.

QUARTA NOVELA. Um monge, caído em pecado merecedor de gravíssima punição, livra-se da pena repreendendo, a seu abade, culpa idêntica.

QUINTA NOVELA. A Marquesa de Monferrato, com um banquete de galinhas e com algumas palavrinhas amáveis, reprime o amor louco do rei de França.

SEXTA NOVELA. Um homem digno confunde, com uma boa resposta, a perversa hipocrisia dos religiosos.

SÉTIMA NOVELA. Com uma novela de Primasso e do abade de Cligni, Bergamino critica honestamente uma nova avareza aparecida no Senhor Cane della Scala.

OITAVA NOVELA. Guilherme Borsiere fere, com palavras nobres, a avareza do Senhor Ermino dos Grimaldi.

NONA NOVELA. O rei de Chipre, ao ver-se melindrado por uma mulher da Gasgonha, transforma-se, de mau que era, em homem de real valor.

DÉCIMA NOVELA. O professor Alberto, de Bolonha, faz, com elegância, envergonhar-se a mulher que pretendeu vexá-lo por ele se haver apaixonado por ela mesma.

SEGUNDA JORNADA: FILOMENA

PRIMEIRA NOVELA. Fingindo-se aleijado, Martelino comporta-se como pessoa que se cura por intervenção de Santo Arrigo. Depois é apupado, e entra, em certa altura, em perigo de ser dependurado a uma corda pelo pescoço. Por fim salva-se.

SEGUNDA NOVELA: Rinaldo d’Asti é roubado; aparece em Castel Guglielmo, onde é hospedado por uma viúva. Ressarcido dos seus prejuízos, regressa, são e salvo, à própria casa.

TERCEIRA NOVELA. Três moços empobrecem por despenderem mal os seus haveres. Um sobrinho deles, fazendo-se acompanhar por um abade, regressa à sua casa, levado pelo desespero. E verifica que esse abade era, sob disfarce, a filha do rei da Inglaterra, a qual se casa com ele e paga os prejuízos sofridos pelos tios, devolvendo-os a uma situação econômica muito boa.

QUARTA NOVELA. Depois de empobrecer-se, Landolfo Ruffolo torna-se corsário. Capturado pelos genoveses, foge para o mar. Salva-se em cima de uma caixa repleta de joias caríssimas. Em Gorfu, é salvo por uma mulher, e regressa à própria casa, novamente rico.

QUINTA NOVELA. Andreuccio de Perusi, indo a Nápoles a fim de comprar cavalos, é surpreendido, numa noite, por três graves acidentes; escapando com vida de todos, regressa à própria casa com um rubi.

SEXTA NOVELA. A Senhora Berítola é encontrada, com dois cabritos, numa ilha. Por haver perdido dois filhos, ela parte para Lunigiana. Ali, um dos filhos briga com o empregador dela, e enamora-se da filha dele, empregador, sendo por isto atirado ao cárcere. A Sicília revolta-se contra o rei Carlos. O filho, reconhecido pela mãe, casa-se com a filha do empregador. A seguir, o moço encontra-se com seu irmão, e regressa à vida abastada de anteriormente.

SÉTIMA NOVELA. O Sultão da Babilônia põe uma filha em viagem para ela se casar com o rei do Garbo. Através de numerosas peripécias, no decorrer de quatro anos, a moça cai nas mãos de nove homens diferentes, em lugares diversos. Finalmente, restituída ao pai, ainda como pucela, vai a moça para junto do rei do Garbo, como tencionava antes, para ser sua esposa.

OITAVA NOVELA. O Conde de Antuérpia, falsamente acusado, vai para o exílio; deixa dois filhos seus, em lugares diferentes, na Inglaterra; ele, desconhecido, voltando da Irlanda, encontra esses filhos em boas condições. Vai, na qualidade de cavalariço, para o exército da França. Reconhecido inocente, volta às condições sociais anteriores.

NONA NOVELA. Barnabé, de Gênova, é enganado por Ambrosinho; perde o que é seu; manda que sua esposa, inocente, seja morta. Ela escapa e, em trajes masculinos, serve o sultão. Encontra o enganador e atrai Barnabé a Alexandria. Ali, o enganador é punido. A esposa retorna aos trajes femininos; e volta com o marido, ambos ricos, a Gênova.

DÉCIMA NOVELA. Paganino da Mônaco rouba a esposa do Senhor Ricardo de Quinzica; este, sabendo onde ela se encontra, vai para lá e se faz amigo de Paganino. Pede-lhe a devolução da esposa, e ele, desde que o queira, lha concede. Ela, porém, não quer voltar à companhia dele; por morte do Senhor Ricardo, torna-se esposa de Paganino.

TERCEIRA JORNADA: NEIFILE

PRIMEIRA NOVELA. Masetto de Lamporecchio faz-se mudo e torna-se hortelão de um convento de mulheres; e elas competem entre si para deitarem com ele.

SEGUNDA NOVELA. Um palafreneiro se deita com uma mulher de Agilulfo, rei; tacitamente, Agilulfo dá pela coisa; encontra o culpado e tosa-o; o tosado tosa todos os outros, e assim foge à própria desgraça.

TERCEIRA NOVELA. Imprimindo à sua manobra o aspecto de confissão e de puríssima consciência, certa mulher, enamorada de um jovem, induz um frade circunspecto (sem que ele dê por isso) a fazer com que a vontade dela seja satisfeita.

QUARTA NOVELA. Dom Félix ensina, ao frade Puccio, como é que pode tornar-se beato, submetendo-se a um a penitência. O frade Puccio submete-se; nesse entrementes, Dom Félix passa bons quartos de hora com a mulher do frade.

QUINTA NOVELA. O Zima dá, ao Senhor Francisco Vergellesi, um seu palafrém; por isto, com licença dele, fala à sua mulher; visto que ela se cala, ele mesmo responde, como se fosse a pessoa dela que respondesse; e, de acordo com a sua resposta, segue-se o devido efeito.

SEXTA NOVELA. Ricardo Minutolo ama a mulher de Filipinho Sighinolfi; esta se sente enciumada, porque Filipinho lhe revela que deve ir, no dia seguinte, a um banho com a esposa de Ricardo; por isto, Ricardo faz com que ela vá a esse banho; e, julgando estar com o marido, ela verifica, depois, que foi com Ricardo que esteve.

SÉTIMA NOVELA. Tedaldo, perturbado por uma mulher, sai de Florença; para ali regressa, na qualidade de peregrino, depois de algum tempo; fala com aquela mulher, dando-lhe conhecimento do erro em que incorreu; livra da morte o marido dela, que se havia provado que o matara; pacifica-o com os irmãos; e, depois, sabiamente, saboreia prazeres com a mulher que ama.

OITAVA NOVELA. Ferondo, depois de comer determinado pó, é enterrado como se fora morto. O abade, que aufere prazeres de amor da esposa dele, tira-o da sepultura e põe na prisão, fazendo-o crer que se encontra no purgatório. Depois, ressuscitado, considera como sendo seu um filho nascido dos amores do abade com sua mulher .

NONA NOVELA. Gilletta de Narbona cura o rei de França de uma fístula; pede-lhe, para seu marido, Beltrão de Rossilhão, o qual, casando-se com ela contra a própria vontade, vai, só de raiva, para Florença; ali, apaixona-se por uma jovem; na pessoa dela, Gilleta tem relações com ele, dando-lhe dois filhos; por esta razão ele, depois, começa a querê-la bem; e como esposa passa a tratá-la.

DÉCIMA NOVELA. Alibeque torna-se eremita, e a ela o monge Rústico ensina como se faz para reenviar o diabo ao inferno; a seguir, ela, já liberta, se faz mulher de Neerbal.

QUARTA JORNADA: FILÓSTRATO

PRIMEIRA NOVELA. Tancredo, príncipe de Salerno, mata o amante da filha; e manda à filha o coração dele, numa taça de ouro. A filha põe, na taça sobre o coração, água envenenada, que bebe. E assim morre.

SEGUNDA NOVELA. Frei Alberto convence determinada mulher de que o Anjo Gabriel está apaixonado por ela; e, na forma desse anjo, deita-se muitas vezes com ela. A seguir, com medo dos parentes dela, atira-se da janela da sua casa, e vai restabelecer-se na residência de um pobre homem. Este, no dia seguinte, conduz o frade à praça pública, na forma de homem selvagem. Ali, frei Alberto é reconhecido e preso pelos seus frades, sendo depois encarcerado.

TERCEIRA NOVELA. Três jovens amam três irmãs, e com elas fogem para Creta. A mais velha mata, por ciúme, o seu amante; a segunda, entregando-se ao Duque de Creta, poupa a vida da primeira; o amante da segunda mata-a, e foge com a primeira. Do crime, é acusado o terceiro amante com a terceira irmã; os dois são presos e, de medo de morrerem, subornam com dinheiro a guarda do cárcere; depois fogem, pobres, para Rodes, onde vão morrer na miséria.

QUARTA NOVELA. Contrariando a fé jurada pelo Rei Guilherme, seu avô, Gerbino dá combate a um navio do rei de Túnis, para dali retirar uma filha deste soberano. A moça é assassinada pelos tripulantes do navio, os quais, por sua vez, são mortos por Gerbino e seus companheiros. E Gerbino, depois, é decapitado.

QUINTA NOVELA. Os irmãos de Lisabetta matam o amante dela; o morto aparece-lhe em sonho, e mostra-lhe o lugar onde está soterrado. Às escondidas, a moça desenterra a cabeça do amante; coloca-a num vaso de terracota de manjericão; sobre esse vaso, passa a chorar todos os dias, durante uma hora cada dia; os irmãos tiram-lhe o vaso e, pouco depois, ela morre de dor.

SEXTA NOVELA. Andreuola ama Gabriotto; ela conta-lhe um sonho; ele conta-lhe outro, e morre, subitamente, nos braços dela. Enquanto ela, em companhia de uma sua aia, procura levar-lhe o corpo para a casa dele, é presa pela Senhoria; e ela narra como o fato se deu. O podestade quer forçá-la; ela não o tolera. O pai dela toma conhecimento disto e, depois de ela ser considerada inocente, faz com que a ponham em liberdade. A moça, recusando-se terminantemente a continuar no mundo, se faz monja.

SÉTIMA NOVELA. Simona ama Pasquino; os dois se encontram juntos, num horto. Pasquino esfrega, nos próprios dentes, uma folha de salva; e morre. Simona é presa; e, desejando mostrar ao juiz como foi que Pasquino morreu, também esfrega nos dentes uma daquelas folhas; e, semelhantemente, morre.

OITAVA NOVELA. Girólamo ama Salvestra; obrigado pelos rogos da mãe, vai a Paris; regressa, e encontra casada a moça dos seus amores; ele entra, às escondidas, na casa dela, e morre-lhe ao lado; seu corpo é levado para uma igreja; e lá a Salvestra morre ao lado dele.

NONA NOVELA. O Senhor Guilherme Rossilhão dá de comer, à sua mulher, o coração do Senhor Guilherme Guardastagno, assassinado por ele e amado por ela. A mulher vem a saber disto; então, atira-se de uma alta janela ao chão; e morre; depois, é sepultada com o seu amante.

DÉCIMA NOVELA. A mulher de um médico põe, numa arca, um seu amante, por julgá-lo morto, quando, na verdade, ele apenas havia bebido ópio. A arca, com ele dentro, é levada por dois usurários para a casa deles. O amante volta a si; e é preso como ladrão. A criada da mulher do médico declara, na Senhoria, ter sido ela a pessoa que pôs o homem dentro da arca roubada pelos usurários. Em consequência, o amante escapa da forca, ao passo que os agiotas são condenados a uma pena em dinheiro por haverem roubado a arca.

QUINTA JORNADA: FIAMMETTA

PRIMEIRA NOVELA. Amando, Cimone torna-se esclarecido; e rapta, no mar, a Efigênia, sua amada; em Rodes, é posto na cadeia, de onde é retirado por Lisímaco; de novo, em sua companhia, rapta Efigênia e Cassandreia durante as respectivas núpcias; os dois fogem com as mulheres mencionadas para Creta; ali, elas tornam-se suas esposas; e, com elas, eles são chamados para as próprias casas.

SEGUNDA NOVELA. Constança ama Martuccio Gomito; recebendo notícia de que ele está morto, fica desesperada; põe-se, sozinha, numa barca, que é levada pelo vento a Susa; ela reencontra Martuccio vivo, em Túnis; fala-lhe; ele, que se tornara grande pelos conselhos dados ao rei, desposa-a; e, rico, em companhia dela, regressa à ilha de Lípari.

TERCEIRA NOVELA. Pedro Boccamazza foge com Agnolella; encontra-se com ladrões; a moça foge por uma selva, e é conduzida a um castelo. Pedro é preso, mas foge das mãos dos ladrões; depois de algumas peripécias, vai dar no castelo em que Agnolella se encontra; casa-se com ela e, em sua companhia, regressa a Roma.

QUARTA NOVELA. Ricardo Manardi é encontrado, pelo Senhor Lízio de Valbona, com a filha deste; casa-se com ela; e passa a viver em boa paz com o pai dela.

QUINTA NOVELA. Guidotto da Cremona deixa uma sua menina a Jacomino da Pavia; e morre; Giannuol di Severino e Minghino di Míngole amam a menina feita moça, em Faenza; brigam; descobre-se que a moça é irmã de Giannuol; e ela é dada como esposa a Minghino.

SEXTA NOVELA. Gianni di Prócida é encontrado com uma jovem por ele amada, que fora dada ao Rei Frederico; em consequência, é condenado a morrer queimado, na companhia dela; e, por isso, é amarrado a um pau. É reconhecido por obra de Rogério dell’Oria; salva-se; e torna-se marido da jovem.

SÉTIMA NOVELA. Teodoro, enamorado de Violante, filha do Senhor Américo, seu amo, engravida-a, sendo, por isto, condenado à forca; é conduzido ao patíbulo, onde é reconhecido pelo pai e posto em liberdade; e, então, toma Violante por mulher.

OITAVA NOVELA. Anastácio degli Onesti, por amar uma Traversari, despende as suas riquezas, sem ser amado. A pedido dos seus pais, vai para Chiassi; ali vê um cavaleiro dar caça a uma jovem, que mata e deixa que seja devorada por dois cães. Anastácio convida os seus parentes e aquela mulher por ele amada para um jantar. A mulher amada vê aquela jovem ser devorada; e, temendo que semelhante coisa lhe aconteça, toma Anastácio por marido.

NONA NOVELA. Frederico degli Alberighi ama e não é amado; fazendo despesas em cortesias, consome sua riqueza; afinal, resta-lhe unicamente um falcão; não possuindo outra coisa, dá de comer deste falcão a uma sua mulher, que lhe fizera uma visita em casa; a mulher, ao saber disto, muda de opinião; toma-o por marido e faz dele um homem rico.

DÉCIMA NOVELA. Pedro de Vinciolo vai jantar algures; sua mulher recebe, em sua casa, um rapazola; Pedro regressa ao lar; ela esconde o rapazola embaixo de um jacá de galinha. Pedro conta que, em casa de Herculano, com quem havia tencionado jantar, se havia encontrado um moço, introduzido pela esposa dele, Herculano; a mulher de Pedro lamenta a sorte da esposa de Herculano. Um jumento, por desgraça, põe a pata em cima dos dedos do rapazola que estava por baixo do jacá; o rapazola grita; Pedro acode, vê o rapazola; toma conhecimento da infidelidade praticada pela mulher; mas com ela, por fim, volta à concórdia, para sua tristeza.

SEXTA JORNADA: ELISA

PRIMEIRA NOVELA. Um cavaleiro diz, à Senhora Oretta, que a conduzirá a cavalo, com uma novela; mas, narrando-a sem qualquer compostura, é solicitado, por ela, para que a deixe ir a pé.

SEGUNDA NOVELA. Com uma palavra apropriada, o padeiro Cisti faz com que o Senhor Geri Spina se arrependa de uma pergunta atrevida.

TERCEIRA NOVELA. Monna Nonna dei Pulci, por meio de uma resposta pronta, impõe silêncio ao motejar menos do que honesto do bispo de Florença.

QUARTA NOVELA. Chichibio, cozinheiro de Conrado Gianfigliazzi, transforma em riso, por meio de acertada palavra, para sua salvação, a ira de seu amo; e assim escapa à má sorte com a qual Conrado o ameaçara.

QUINTA NOVELA. O Senhor Forese da Rabatta e Mestre Giotto, pintor, procedendo de Mugello, mordem-se reciprocamente, motejando cada qual em torno do aspecto acabado do outro.

SEXTA NOVELA. Miguel Scalza prova, a determinados moços, que os Baronci são os homens mais gentis do mundo, ou de marema; e vence uma ceia.

SÉTIMA NOVELA. A Senhora Filipa é encontrada, pelo seu marido, em companhia de um seu amante; chamada em juízo, dá uma resposta pronta e agradável; e, por isto, livra-se de pena, fazendo, ao mesmo tempo, com que se modifique o código.

OITAVA NOVELA. Fresco recomenda à sobrinha que não se contemple ao espelho se, como ela diz, lhe é tedioso ver pessoas desagradáveis.

NONA NOVELA. Guido Cavalcanti profere, honestamente, com uma frase, um insulto a determinados cavaleiros florentinos que o haviam cercado.

DÉCIMA NOVELA. O frade Cipolla promete, a determinados camponeses, mostrar a pena do anjo Gabriel; em lugar dessa pena, ele encontra carvão; e diz que tais carvões são aqueles que assaram São Lourenço.

SÉTIMA JORNADA: DIONEIO

PRIMEIRA NOVELA. Gianni Lotteringhini ouve, certa noite, que batem à sua porta. Acorda a mulher. E ela faz com que ele creia que se trata de um fantasma. Os dois procuram proceder ao encantamento, por meio de uma oração; mas o bater continua.

SEGUNDA NOVELA. Peronella põe o seu amante numa barrica quando o marido regressa à casa. A barrica, porém, tinha sido anteriormente vendida, pelo marido; este, então, diz que a vendeu a um comprador que irá examiná-la por dentro, para verificar se encontra-se em perfeito estado. O amante salta para fora; faz com que o marido raspe o fundo da barrica; depois, manda que a levem para a sua casa.

TERCEIRA NOVELA. O frade Rinaldo deita-se com a comadre; o marido encontra-o na alcova com ela; e ela e o frade fazem-no crer que estavam encantando os vermes do afilhado.

QUARTA NO VELA. Certa noite, Tofano fecha a porta, deixando a esposa fora de casa. A esposa, não podendo entrar por meio de rogos, finge atirar-se a um poço, atirando, no poço, em seu lugar, uma pedra. Tofano sai de casa e corre para o poço; ela, então, entra em casa, fecha a porta, deixando-o ao relento; e acaba repreendendo-o e vituperando-o.

QUINTA NOVELA. Um indivíduo ciumento, disfarçado em padre, procede à confissão da própria esposa; ela dá-lhe a entender que ama um padre que vai ter com ela todas as noites; e, enquanto o ciumento, às ocultas, monta guarda à porta de sua casa, ela faz descer, do telhado, um seu amante; e com ele se entretém.

SEXTA NOVELA. Ao estar com Leonetto, Dona Isabel é visitada pelo Senhor Lambertuccio, por quem é amada; o marido dela regressa à casa; e Lambertuccio é mandado embora com um punhal na mão; depois, o marido dela acompanha Leonetto.

SÉTIMA NOVELA. Ludovico revela, à Senhora Beatriz, o amor que lhe tem; ela manda Egano, seu marido, para um jardim, sob disfarce, fingindo ser ela própria; nesse entrementes, entretanto, ela deita-se com Ludovico; depois, Ludovico, erguendo-se da cama, vai espancar Egano no jardim.

OITAVA NOVELA. Um homem se torna ciumento de sua esposa; ela, amarrando um barbante a um dedo, durante a noite é avisada da chegada de seu amante. O marido percebe a artimanha. Enquanto o marido persegue o amante da esposa, esta coloca, na cama, outra mulher, à qual o marido aplica uma surra e corta as tranças; depois, o marido vai à procura dos irmãos da esposa, aos quais revela a traição conjugal; os irmãos verificam que a acusação não tem fundamento, e xingam o marido.

NONA NOVELA. Lídia, esposa de Nicóstrato, ama Pirro; para acreditar no amor dela, ele pede-lhe que faça três coisas; e ela as faz todas; além disto, na presença de Nicóstrato, aufere prazeres com ele, conseguindo fazer com que Nicóstrato considere não ser verdade o que viu.

DÉCIMA NOVELA. Dois sienenses amam a mesma mulher, que é comadre de um deles. O compadre morre e, de acordo com a promessa feita, aparece ao companheiro sobrevivente, contando como é que se mora no além.

OITAVA JORNADA: LAURINHA

PRIMEIRA NOVELA. Gulfardo pede dinheiro emprestado a Guasparruolo; e entrega a quantia à mulher dele, com a qual havia combinado deitar-se a troco de igual soma. Depois, na presença dela, diz, a Guasparruolo, que devolveu o dinheiro à mulher dele; e ela não pode revelar a verdade.

SEGUNDA NOVELA. O cura de Varlungo deita-se com Monna Belcolore; deixa-lhe em penhor um tabardo de sua propriedade; pede-lhe emprestado um cadinho; devolve-lhe este cadinho e manda pedir-lhe que por sua vez lhe devolva o tabardo, dizendo que o havia deixado a título de lembrete; e a mulher o devolve, proferindo reproches.

TERCEIRA NOVELA. Calandrino, Bruno e Buffalmacco descem pelo Mugnone abaixo, à procura da pedra heliotrópio; em certa altura, Calandrino julga tê-la encontrado; volta à própria casa, carregado de pedras; a mulher o repreende; ele, enfurecido, surra-a; e vai contar aos companheiros aquilo que eles sabiam melhor do que ele.

QUARTA NOVELA. O preboste de Fiesole ama uma mulher viúva; não é amado por ela; mas, julgando deitar-se com ela, deita-se com uma sua doméstica; e os irmãos da viúva fazem com que seu bispo o encontre nessas condições.

QUINTA NOVELA. Três moços tiram as calças de um juiz marquesão, em Florença, enquanto ele, encontrando-se à Tribuna, expunha suas razões.

SEXTA NOVELA. Bruno e Buffalmacco roubam um porco a Calandrino; induzem-no a fazer a experiência de o reencontrar com bolotas de gengibre e vinho branco doce; dão-lhe duas de tais bolotas, uma depois da outra, mas daquelas destinadas a cães, confeccionadas com aloés; e resulta que ele mesmo havia roubado o animal. Por fim, levam Calandrino a readquirir o porco, se é que não deseja que eles refiram o episódio à esposa dele.

SÉTIMA NOVELA. Um estudante ama uma mulher viúva; esta, apaixonada por outrem, o faz esperar, em plena neve, durante toda uma noite de inverno; em compensação, o estudante, por meio de um conselho que lhe dá, faz com que ela, em pleno mês de julho, fique, toda nua, um dia inteiro, sentada no topo de uma torre, exposta às moscas, aos tavões e ao sol.

OITAVA NOVELA. Dois homens são amigos íntimos; um se deita com a mulher do outro; o outro, percebendo o fato, combina com sua esposa, e age por tal forma, que o primeiro se vê encerrado numa caixa; depois, em cima desta caixa, estando o primeiro dentro dela, o segundo deita com a mulher desse primeiro.

NONA NOVELA. Mestre Simão, médico, quer entrar para um bando que pratica o corso, e do qual pensa que Bruno e Buffalmacco fazem parte. Para isto, é induzido a ir, de noite, a determinado lugar; então, é atirado, por Buffalmacco, a uma cloaca, onde é abandonado.

DÉCIMA NOVELA. Uma siciliana subtrai, magistralmente, a um mercador, o que ele havia levado para Palermo. O mercador, fingindo regressar a Palermo com muito mais mercadorias do que antes, recebe dinheiro das mãos dela; e deixa-a a ver navios.

NONA JORNADA: EMÍLIA

PRIMEIRA NOVELA. A Senhora Francisca, amada ao mesmo tempo por um florentino chamado Rinuccio e por outro chamado Alexandre, mas não amando nenhum dos dois, manda que um deles entre, como se fora morto, numa sepultura, e que o outro de lá o retire, como se retirasse um morto. Por não poderem eles chegar ao fim determinado, ela, muito cautelosa, se livra deles.

SEGUNDA NOVELA. Uma abadessa se levanta da cama, às pressas e no escuro, para ir surpreender uma sua monja, que havia sido acusada, em companhia do próprio amante, no leito. Quem estava na cama, com a abadessa, era um padre; e a abadessa, julgando pôr à cabeça o saltério dos véus, pôs as calças daquele padre. Vendo isto, a monja acusada fez com que ela percebesse o engano; assim, a monja foi perdoada; e teve a comodidade que quis, para se ficar com o seu amante.

TERCEIRA NOVELA. Mestre Simão, por insistência de Bruno, Buffalmacco e Nello, induz Calandrino a crer que está grávido. Calandrino dá, aos homens referidos, capões e dinheiro, a fim de que lhe comprem remédios; depois, sara, sem dar à luz.

QUARTA NOVELA. Cecco do Senhor Fortarrigo joga, em Buonconvento, todas as suas coisas, mais o dinheiro de Cecco do Senhor Angiulieri; em camisa, corre atrás dele, gritando que ele o havia roubado; e faz com que ele seja preso por trabalhadores do campo; afinal, veste as roupas dele; monta no palafrém; e, retirando-se, deixa-o em camisa.

QUINTA NOVELA. Calandrino enamora-se de uma jovem; Bruno prepara, para uso de Calandrino, um breve, ou sortilégio, com o qual, assim que ele a toca, ela se entrega a ele. Calandrino é descoberto pela sua esposa; e tem, com ela, uma questão muito grave e tediosa.

SEXTA NOVELA. Dois jovens se hospedam em casa de um determinado homem; um deles vai deitar-se com a filha dele; e a mulher dele, inadvertidamente, deita-se com o outro. O jovem, que se encontrava com a filha, vai para a cama com o pai dela, e conta-lhe tudo o que se passou; mas o faz pensando contar ao seu companheiro; os dois promovem uma barulheira; a esposa, só então formando ideia da situação criada, entra no leito da filha, e depois, com certas palavras, restabelece a paz.

SÉTIMA NOVELA. Talano di Molese sonha que um lobo dilacera a garganta e o rosto de sua esposa. Recomenda-lhe, por isto, muita cautela. A mulher não lhe dá ouvidos; e o sonho acontece-lhe.

OITAVA NOVELA. Biondello promove uma burla contra Ciacco, a propósito de uma refeição. Dela, Ciacco vinga-se cautelosamente, fazendo com que apliquem, a Biondello, uma surra memorável.

NONA NOVELA. Dois jovens pedem conselho a Salomão; um deles, para conseguir ser amado; o outro, para poder castigar a mulher geniosa. Ao primeiro, Salomão aconselha que ame; ao segundo, que vá à ponte All’Oca.

DÉCIMA NOVELA. Donno Gianni, por instância do compadre Pedro, faz o feitiço destinado a transformar sua esposa em égua; quando vai para aplicar a cauda, o compadre Pedro, dizendo que não quer cauda, arruína o efeito todo da mandinga.

DÉCIMA JORNADA: PÂNFILO

PRIMEIRA NOVELA. Um cavaleiro serve o rei de Espanha; afigura-se-lhe que é mal galardoado. Por esta razão, o rei, com inegável experiência, lhe mostra que isso não decorria de culpa dele, rei, e sim da sorte perversa dele, cavaleiro; e, depois, recompensa-o generosamente.

SEGUNDA NOVELA. Guino di Tacco prende o abade de Cluny, e cura-o do mal do estômago; depois, dá-lhe a liberdade. O abade, regressando à corte de Roma, reconcilia Guino di Tacco com o Papa Bonifácio, que lhe concede a Prioria do Hospital.

TERCEIRA NOVELA. Mitrídanes sente inveja da cortesia de Natã; vai à procura dele, para o matar; mesmo sem o conhecer, dá com ele; e informado, por ele mesmo, quanto à maneira de o encontrar, vai encontrá-lo num pequeno bosque, de acordo com aquela informação. Mitrídanes reconhece, em Natã, o homem que o informara; envergonha-se; e torna-se seu amigo.

QUARTA NOVELA. O Senhor Gentil dei Carisendi, procedendo de Módena, retira, da sepultura, uma mulher casada, amada por ele, que fora sepulta como se estivesse morta. A mulher, voltando aos próprios sentidos, dá à luz um filho; e o Senhor Gentil restitui a mulher e o filho a Niccoluccio Caccianimico, marido dela.

QUINTA NOVELA. A Senhora Dianora pede, ao Senhor Ansaldo, um jardim, que seja tão belo em janeiro como em maio. O Senhor Ansaldo, recorrendo aos serviços de um nigromante, satisfaz o pedido. O marido dela, então, permite que ela aceda ao desejo do Senhor Asnaldo; este, porém, ao ter conhecimento da liberalidade do marido, desobriga-a da promessa; e o nigromante, sem querer coisa alguma para si mesmo, desobriga o Senhor Ansaldo.

SEXTA NOVELA. O Rei Carlos, velho vitorioso, apaixonou-se por uma jovenzinha. Envergonha-se do seu sentimento aloucado; e promove o casamento condigno tanto dela como de uma sua irmã.

SÉTIMA NOVELA. O Rei Pedro, ao saber do fervoroso amor que para com ele nutria a Lisa enferma, esforça-se no sentido de a confortar. A seguir, promove o casamento dela com jovem de grandes méritos. Depois, beija-a na fronte, jurando tornar-se para sempre seu cavaleiro.

OITAVA NOVELA. Sofrônia, julgando-se esposa de Gisippo, é esposa de Tito Quínzio Fulvo, e vai, em sua companhia, para Roma. Gisippo chega a Roma em mau estado; imaginando-se desprezado por Tito, quer morrer, e afirma ter matado um determinado homem, a fim de ser condenado à morte. Tito reconhece-o no tribunal e, para livrá-lo, declara-se a si mesmo assassino daquele determinado homem. Assistindo a esta nobre contenda entre dois inocentes, o verdadeiro assassino se apresenta. Por esta razão, Otaviano manda que sejam todos postos em liberdade; Tito, então, dá sua própria irmã, na qualidade de esposa, a Gisippo; e com ele condivide todos os seus bens.

NONA NOVELA. Saladino, em trajes de mercador, é homenageado pelo Senhor Torello. Organiza-se a cruzada. O Senhor Torello estabelece um prazo para que, se ele não voltar, a sua mulher torne a casar-se. É preso; e, por tratar de amestrar pássaros, a notícia da sua prisão chega aos ouvidos de Saladino. Este o reconhece; faz-se reconhecer por ele; e muitas honras lhe presta. O Senhor Torello enfermo é levado, por artes mágicas, numa determinada noite, para Pavia; durante as núpcias que se celebram então, da sua esposa que se tornara a casar, é por ela reconhecido; interrompem-se as núpcias; e ele, com ela, volta para a sua residência.

DÉCIMA NOVELA. O Marquês de Saluzzo se vê obrigado a casar-se devido aos rogos dos seus homens; para casar-se a seu gosto, escolhe a filha de um aldeão, da qual recebe, a seu tempo, dois filhos, que ele finge mandar matar. A seguir, finge casar-se de novo, repudiando a esposa que tem, e expulsando a esta de sua casa, em camisa. Posteriormente, manda chamá-la, apresentando-lhe, como nova esposa, a própria filha, já então crescida e linda. Por fim, vendo a esposa verdadeira submeter-se pacientemente a todas as provações, o marquês fá-la voltar aos seus braços e ao seu lar; mostra-lhe, então, os filhos; honra-a como a autêntica marquesa; e faz com que como tal a venerem.

Fragmento

“Nestas condições, a vida dessa esposa era péssima; e ela tanto menos paciente se mostrava, não tolerando semelhante imposição, quanto mais se sentia inocente. Assim, vendo que sem razão concreta o marido lhe fazia tal injúria, resolveu, para consolo de si mesma, encontrar um meio — se isso fosse possível — de tornar justificada aquela mesma injúria. Visto, porém, que não podia assomar à janela, e que, portanto, ela não podia mostrar-se contente com o amor de alguém que, pela sua casa passando, o manifestasse, achou que tinha de proceder de outra maneira. Ficou sabendo que, na casa contígua à sua, vivia um jovem, bonito e maneiroso; e pensou que, se houvesse, na parede que dividia a sua casa da dele, um orifício, ela poderia espiar, por ali, tantas e tantas vezes, que um dia veria o moço em condições de poder falar-lhe; assim, daria, ao moço, o seu amor, desde que ele o quisesse receber; e, se houvesse possibilidade, bem que gostaria de encontrar-se a sós com ele, uma ou outra vez. Por esta forma, ela conseguiria ir vivendo a sua vida desgraçada, até quando o diabo resolvesse sair das costas do seu marido.” (Sétima jornada, quinta novela, conto de Giovanni Boccaccio)