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Cavalo branco

Só montava nele o Valdo, ginete desde menino. Árabe branco, inteiro, de filme. As ventas escuras infladas, bufando. Olhos esbugalhados, num espanto do mundo. Os cascos sovando brutos o barro do curral.

Ela menina que ninguém notou crescer na fazenda, onze anos talvez, franzina de quebrar. Filha de quem mesmo? Medrosa de qualquer coisa que se mexesse, só do árabe que não. Logo dele, aquelas narinas de dragão, os cascos fervendo. Ela imaginava fazia dias já.  Espiava o árabe, piscava, piscava, piscava, o coração tamborilando. Esperou feito adulta a combinação justa: o Valdo sumido na plantação, o árabe encostado na cerca. Esgueirou-se, escalou as ripas do cercado, deslizou feito sombra para o alvo lombo. Agarrou firme a crina espessa. Deitou a bochecha no pelo liso, o couro morno. Cerrou os olhos, aspirou fundo o cheiro acre do bicho. Ficaria ali uma vida inteira, curta que fosse.

Uma única corcoveada seria o fim, mas o árabe apenas trotou, generoso. Tremelicou indolente o costado, balançou a cabeça, bufou leve. Ela já empertigada, o olhar lá no fim do campo, as mãos engalfinhadas na crina. Seu momento que chega. Ele aumenta o trote, sem pressa. Então toma gosto, dispara. Ela agora sobre seu sonho branco desembestado, o campo em terremoto, seu fino corpo escorregando sem volta, as mãos tenras crispadas na crina.

No baque do chão, algum osso sempre se parte. Um cavalo árabe que some no horizonte. O corpo que fica.

Emborcada no pasto, inerte, gosto de capim na boca, ela pisca. A dor de terra firme paraliza. O coração ciente, compassando. Respiração que volta. O sorriso que tenta sair. Entre os dedos da mão, no punho cerrado, os fios arrancados da crina.

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Riacho

Ronildo traz sempre com ele o banquinho forrado, caminha até o meio da ponte, senta, puxa um cigarro. Se acha que vai armar chuva, vem de capa, bota. Fica admirando o fiozinho de água do riacho bem lá embaixo. Intercala olhando em volta, espia. É ponte curta, aço grosso, rebite. Penhasco agudo. Queda demorada. Ronildo vem todo domingo, final de tarde. Fica coisa de duas, três horas. Volta pra casa sacolejando o banquinho. Não falha. Nunca. Cinco anos já.

Foi no Seresta, cerveja nem tinha mais de tão tarde, o Nico olhou sério pra ele, disse: acontece quase sempre no domingo, na tardinha. Solidão aguda, desgosto sem cura. Gente bem nova. Dar cabo da vida assim, tão cedo, pode? Remédio forte, ponte, pulso atorado, o que calhar. Tá nas estatísticas. 

Nico sabe das coisas, vive na internet.

Aquela ponte perfeita, Ronildo sabe que um dia vai acontecer, certo como o céu. Gente ali do vilarejo. Filho de algum conhecido. Sobrinho, que tem sempre em quantidade. A neta do Antônio, séria candidata, sempre amuada. Quem vai saber? Daí o plantão, rigoroso. Se não aconteceu ainda é porque enxergam a fumaça do cigarro, ele na vigília, matutando. Almas salvas por um banquinho, uns poucos cigarros. Custa? O povo não entende. Não quer reputação, só que reconhecessem. Que não ficassem zoando, chamando de Ronidoido da Ponte. Todo domingo, cinco anos. Sem falha. Quantas almas já? O riacho lá embaixo, esperando.

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Marulho

A ideia foi dela. Hesitei: Brasil não tem fim, estrada bruta, buraqueira. Numa Kombi? É dura de guia, barulhenta. Sonho não tem adio, vida passa assim, num piscar, ela disse. Trinquei mandíbula, revirei os olhos. Cabeça fervendo. Vambora então, cedi. Ela feliz que brilhava, catou logo uma Kombi toda feita já, cama, trempe.

Norte? Ela pergunta. Isso, Norte. Amanhã, bem cedo, digo.

Banho em posto de gasolina, cozinhando na beira da estrada. Rodamos. Verde pra onde se olhe. Duzentos e vinte milhões de criaturas, cadê? Só vejo mato, boi, brinco. Ela firme no volante. Sorriso dela espalha por tudo, cansa nunca. 

Dormindo onde calha, que Deus protege quem vaga. Às vezes discutimos, fecho a cara. Ela cantarola, cada qual seu jeito de lidar. Não demora a conversa volta, mansa. Kombi não tem silêncio, não cabe.

Três meses de estrada já. Lua quase cheia. Estacionamento à beira da praia, marulho. Deitados, ela ressona, acabada do dia. Eu de olho estalado, o amanhã na cachola. Estrada sem fim? Remexo, coço. Porque na Kombi se quiser não acaba. É pegar a próxima saída, ver onde dá. Parar quando tem cidade, caminhar de mão dada na praça, tirar foto, comer pastel. 

Ela dorme. Reviro. Quando o novo dia brotar, acabou. É rumo de casa, decisão. Plantar raiz. 

Olho enfim pesa. Apago. 

Marulho. Sol que chega, cuidadoso.

Quatro meses de estrada já. Ideia dela.

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Falar com rosas

Fim de tarde. Sozinho no jardim, espichado na espreguiçadeira, Joel fuma, olhos fechados. Apara a brisa no peito desnudo. Pensa que felicidade, se existir, é assim: farfalhar de folhas, chilreio, tempo que para.

Mas Joel tem um vizinho musical.

A voz de Cartola escorre por cima do muro: 

 

“Bate outra vez

Com esperanças o meu coração

Pois já vai terminando o verão

Enfim”

 

Joel abre os olhos. Pisca.

 

“Volto ao jardim

Com a certeza que devo chorar

Pois bem sei que não queres voltar

Para mim”

 

Apaga o cigarro. Levanta. Caminha. 

 

“Queixo-me às rosas

Que bobagem as rosas não falam

Simplesmente as rosas exalam

O perfume que roubam de ti, ai…”

 

Joel olhando o canteiro. Mato que só, roseiras sem rosa, espinhos. 

 

“Devias vir

Para ver os meus olhos tristonhos

E, quem sabe, sonhavas meus sonhos

Por fim”

 

Canteiro abandonado, Joel inerte. Rosas havia, que Vera plantou, regou. Cheirou. Partiu. Seus outros sonhos a sonhar.

Brisa que sopra, quietude, roseiras. Joel ao fundo, coração que bate. Outra vez. Em descompasso. Sem fim.

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Regresso

O bule de café por terminar e o charuto fumado pela metade me dizem que tu voltas ainda pela manhã, Henrique. Ainda bem. Basta te ausentares da minha vista para que a angústia, essa minha tão velha conhecida, pouse. Aflição inevitável, estúpida. Não é ciúmes, bem sabes. Te compartilho com o mundo em sincera alegria. É que quando sais, essa casa fica enorme. Engasgo com tanto ar.

Se me ausento, não te abalas. Às vezes nem percebes, não é mesmo? Então meus retornos, para ti, não têm a euforia canina que experimento toda vez que voltas, que giras aquela chave. Nisso perdes.

Angústia nem cogito que sintas. Por isso te quis.

Deves estar na padaria. Tão fácil para mim te enxergar. Os cabelos grisalhos, encaracolados, a barba macia. Percorres as múltiplas espécies de pão na prateleira com teus olhos encantados. Acaricias de leve a barriga, pensativo. Inútil dilema: escolherás dois tipos de pão a esmo, pela mera aparência, sem perguntar do que são feitos, como sempre. Quisera eu.

Ou talvez estejas na banca do Arthur. Conversa mole, leve. Cafezinho. Esse Arthur que te conhece há mais tempo do que eu, melhor. Já percebeste que tua risada e a dele estão idênticas? Sintonias que lapidas, paciente, com tudo que te é caro. Comigo. Eu, meu esforço diário para não nos dissolver em uma pasta informe, em que nenhum de nós se reconheça. Disso não sabes, Henrique.

Tantas vezes voltas para casa carregando bobos agrados: empadinhas de camarão, pastéis de belém. Coisas que devo ter mencionado algum dia que gostava, não lembro. Flutuo na tua larga memória de nós. De quando consegui ficar um dia inteiro contigo em silêncio, respirando tua presença, lembro bem. Despida das palavras, pude enfim reconhecer que te amava. 

Agora que não estás aqui, controlo minha agonia. Estou aprendendo, acho. Presente invisível que te ofereço.

Ouço o giro da chave. Meu coração corre.

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Jurubeba

A mãe chegou com ele dentro de uma caixa de sapato furada dos lados, para entrar o ar. Colocou no chão do corredor. Pediu que a gente adivinhasse o que era. Joana e eu, acocorados, olhando a caixa, congelados de emoção. Nem deu tempo de tentar, ele logo piou, se entregando. Um pintinho! O pai nos olhando lá da porta do quarto, sério. Um pintinho! E cinza, nunca tinha visto um assim. Meu coração palpitava. Joana dava pulinhos de satisfação, as marias-chiquinhas balançando pra cima e pra baixo. A mãe abriu a caixa, tirou ele com todo o cuidado, colocou no chão. O pinto ficou parado, meio grogue. Abria e fechava os olhos, bambo. O pai entrou para o quarto, fechou a porta. Tá tonto da viagem, tadinho, a mãe disse. Vamos levar ele pra varanda? Levamos.

Nos primeiros dias a gente ainda ouvia o pai resmungar sobre termos uma galinha morando na varanda do apartamento, que ideia maluca da tua mãe, onde já se viu, mas logo ele também se apegou ao bichinho, se aquietou, voltou a soltar o sorrisão. O pai era assim, imenso, peludo, cara de brabo, mas molinho molinho por dentro. A mãe é que decidia tudo, a gente já sabia.

Batizamos o pinto de Jurubeba, ideia da Joana. Ajeitamos tudo bem direitinho na varanda: comedouro com milho quebrado, pote d’água, casinha, ninho. Joana, sempre impaciente, só falava no tal do ovo. Que a Jurubeba ia botar ovo todo dia, que a gente ia comer ovo no café da manhã. Dava pulinhos de emoção. Eu só queria ficar olhando a Jurubeba na varanda. Até hoje sou assim. Fico admirando. Matutando. Esqueço de tudo.

Só eu notei que a Jurubeba, que de tão mimada estava crescendo feito grama quando chove, tinha ganhado uns ares diferentes. O peito foi alargando, estufando a linda plumagem carijó. A crista tinha encorpado. O cocô estava maior. Caminhava menos. Ficava parada, me encarando.

Então aconteceu. Eram umas seis da manhã, acordamos com o canto. A Joana saiu correndo da cama. Gritava ovo! ovo! ovo! Corri também. Quando chegamos à varanda, Jurubeba estava plantada em cima da casinha. Serena, ereta. Olhava o céu. Logo chegaram a mãe, o pai, aos bocejos. Crescida a plateia, Jurubeba se empertigou ainda mais. Ajeitou as asas. Soltou a voz, com toda a vontade. Bela. Rouca. Máscula. Sem essa de ovo.

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Duelo

Passadas tantas noites em claro, tantos dias no escuro, o cérebro de Miguel, fervilhando em sinapses delirantes, aos poucos se derrete, sorvete ao sol. Envolto nas cobertas, prossegue, romances em punho, lidos às pilhas, um após o outro: Julia, Sabrina, Bianca, Harlequin Paixão. Acossam-lhe sudoreses, taquicardias. Contorce-se em devaneios.

Enfim livre do juízo, veste sua melhor camisa, passa gel no cabelo, apara a barba. Sai à procura de sua amada. Aborda as desavisadas vítimas nas calçadas, praças, mercados, cafés. Olhar em rebuliço, monologa sobre os mistérios insondáveis da paixão, seduções avassaladoras, tremores incontroláveis de desejo, amores proibidos, turbilhões de sentimentos inconfessáveis. Felicidades eternas.

Elas se afastam, rindo, temerosas.

Oh paixões não correspondidas, oh atrozes solidões!

Miguel segue, resoluto. Entra a esmo no Bar do Madruga, depara-se com Dulce. Final de tarde, ela beberica a cerveja, masca sem pressa a porção de fritas. Ouve-lhe pacientemente a ladainha. 

— Você mora aqui perto? — ela pergunta, o olhar ainda nas fritas.

Miguel cala. Pisca. Responde que sim.

— Então vamos, agora — ela diz.

Paga a conta, recarrega o batom.

Ao entrarem, Miguel até tenta se ajoelhar, proferir juras de amor eterno. Não há tempo. Empurrado para a cama, despido aos puxões, é mordido, babado, sugado. Pilado sem misericórdia, aos gritos. Miguel esvai-se, atômico. Como nunca dantes.

Olhos a meio mastro, ele monologa estirado sobre a cama: almas gêmeas, destinos inescapáveis, uniões indissolúveis, até a morte. Dulce recolhe a bolsa do chão da sala. Ajeita o vestido, o cabelo. Refaz o batom. Espia Miguel, seus murmúrios. Ri. Sai. Leva a chave.

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Sussurro

Nossa, quanto tempo! Ainda consigo sentir tua voz roçar no meu ouvido adolescente, nossos segredos escolares. Nós, amigas em tudo, simbiose. Cochichávamos mesmo sem ninguém por perto, porque era tão melhor assim, aos sussurros, lembra? Quantos risos, tolos enigmas. Tanto sol.

Então nossas bocas foram se afastando, um milímetro por vez. Nascemos para os olhares de fora, nossas frases agora soltas, ouvidos alheios. Percebi pela primeira vez teus cabelos encaracolados, os meus lisos. Teus olhos azuis, os meus castanhos. Os outros se encaixando nas nossas frestas. Recordo meu pasmo ao teu primeiro namorado com esse nome. Ele saiu da tua boca assim, meu namorado, singelo, cabal. Só então eu quis. Transei primeiro que você, lembra? 

Nossa, quanto tempo! Teu filho é lindo. Mande mais fotos quando puder. Vem sim, fica aqui comigo, o tempo que quiser. Te ajudo a criar o Antônio, tudo que você precisar. Qualquer coisa. O apartamento é enorme, sou só eu. Espaço de sobra pra ele, pra você. Pros nossos sussurros.

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Fotografia

Aos solavancos, consigo enfim desemperrar a gaveta da estante herdada do vô Nunes. Desperta, a fotografia desliza do vão, pousa de bruços no assoalho. No dorso amarelado, a anotação: “Outono, 1937”.

Agacho-me. Viro a foto. Em tons de sépia, ela posa sentada na cadeira de vime, vasos bojudos ao redor, flores, uma parede de pedras ao fundo. Cabelos curtos, lisos, escuros. Maquiagem densa no olhar atento. Lábios finos, sisudos. Vestido de renda clara. O cigarro fumegando entre os dedos.

Deslizo pela imagem. Toco seu rosto.

Volto ao verso: “Outono, 1937”.

Frêmito.

Meu sono de pedra de antes evapora, noite após noite. Erro pela horda de sonhos em preto e branco. Percorro pontes, ruas, parques. Encontro-a sempre a caminho, apressada. Aproximo-me. Pergunto seu nome. Ela se vira. Traga. Sorri.

Desperto.

Acendo o abajur. Minha pulsação retumba. Olho o relógio: três e quinze da manhã. Três e dezesseis. Dezessete. O tempo, obtuso, me arrasta. Fecho os olhos. Caminho de volta.

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Babel

Enfim aposentados, decidimos construir nossa nova morada na chácara, sair do apartamento, deixar a loucura de São Paulo.

Os desentendimentos não tardaram. 

Pedro queria uma casa toda em um nível só, esparramada no campo. Quartos amplos, salas de estar, jantar e cozinha conjugadas, varandas circundantes. Perguntei se teria esteiras rolantes, essas de aeroporto, para a gente ir de uma peça à outra. 

Fechou a cara. 

Eu queria uma casa vertical, esguia, altiva, terraço com trezentos e sessenta graus de vista para o mato. Com elevador, naturalmente.

E quantos andares, madame? perguntou, de costas para mim, lavando a louça do jantar. Os cabelos brancos, cheios, que eu tanto gostava de afagar.

Quantos o terreno aguentar, respondi. Quando ameaçar afundar, a gente para. Quero fumar tocando o céu. 

Secou as mãos, foi ver TV.

A visita da arquiteta só piorou as coisas. Percebendo o projeto a perigo, ela propôs uma casa plana com uma torre espetada no meio. Um desesperado frankenstein conciliador. Tijolos à vista, ainda por cima. Pedi um prazo para deixar minhas tranças de rapunzel crescerem à altura do projeto. 

Nossa nova casa naufragava, irremediavelmente.

À noite, abraçados na cama, meu nariz afundado naquela nuca branca que eu tanto gostava de cheirar, sussurramos o armistício. Melhor reformar o apartamento. Chácara tem mosca, mosquito. Cobra, sapo, aranha. Mercados distantes, padarias ruins. E um silêncio de enlouquecer. Nem pensar.