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Alma penada

Acocorado sobre o túmulo, ele matuta. Muitas noites assim, baforando pra dentro. Elisa já se acostumou, mas os filhos estranham. Têm medo de cemitério à noite, acham que é coisa de maluco. Ele rebate: se alma penada existisse, penaria logo no cemitério? Mais fácil encontrar no shopping.

Traga, matuta, acaricia a lápide. Cada noite, um túmulo diferente. A fumaça subindo pro preto, nenhuma estrela. Escolhe de instinto: nome, datas.

Valéria Sampaio, 1972-2001. Tão jovem. Doença? tiro?

Fecha os olhos, imagina-a baixa, cabelos curtos, escuros, encaracolados. Jeans, blusa branca. Sandálias. Olhar desconfiado. Bochechuda. Vem apressada, entra na farmácia. Para em frente à prateleira de analgésicos. Ele faz um comentário sobre os riscos do paracetamol. Assim, besta, só pra iniciar a prosa. Ela se vira, franze a testa. Terminam no café ao lado, rindo, comendo pão de queijo.

Elisa não gosta que ele invente essas histórias. Perturba as almas, diz. A gente reencarna, caminha tudo de novo, não carece ficar atiçando.

Ele traga, matuta, sente a pedra. Analgésico.