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Lista de compras

Açúcar não precisa. Compre sal, muito. Não o rosa do Himalaia, nem o marinho de Guérande. Cisne mesmo, aquele bem fininho, que empedra nos rins. Quero assistir o pó branco geando sobre o teu prato farto.

Vinho não precisa. Nossas taças estão todas quebradas. Não joguei fora, sei lá por quê, mas não dá pra usar: sangra a boca, em profusão, já tentei. Teu uísque doze anos está quase no fim. Compre.

Não esqueça das frutas e verduras. Estragam rápido, então temos que comê-las logo, sem pensar, uma bênção. Arroz, feijão, massa, molho de tomate, essas coisas teimosas que não perecem, não precisa. Comprei toneladas da última vez. Dá pra ficar uns seis meses sem sair de casa se houver uma guerra, epidemia. Ou se eu partir levando todas as chaves. Ou se eu ficar, lacrando todas as portas e janelas. Ou se eu partir levando todas as chaves e lacrando todas as tuas portas e janelas.

Agora o mais importante: o sabão das roupas. Compre o Omo superconcentrado. Minhas roupas estão com um cheiro estranho, insuportável. As tuas não, não cheiram a nada.

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Macarrão com queijo

A minúscula mão se abriga dentro da minha. Caminhamos pelo shopping. Tá com fome, Pati? Sim, quero macarrão com queijo, diz. OK, macarrão lá vamos nós! Estico a coluna, faço cara de Lancelot, meu braço em lança apontando solene para a praça de alimentação. Ela ri, toda.

Trotamos. Os cachos pretos sobem e descem.

Só queijo mesmo, sem mais nada, nem molho? A atendente hesita. Os cachos confirmam, resolutos: u-hum. Sentamos. Pati come, ávida, os cabelos e o fettuccine uma massa só. Emborca o suco de laranja. Limpa a boca com as costas da micromão. Agora quero ir pro parquinho, sentencia. Inegociável.

Tento segurar firme sua mão, mas ela já não cabe na minha. Resvala. Bolsa, vestido, colar. Salto. Cabelos tingidos. Passos pensados. Resta o sorriso, igual.

Caminhamos pelo shopping, graves.

Está com fome? pergunta.

Sim. Quero macarrão com queijo, brinco. Ela não sorri. Não lembra.

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Chave

Toc-toc-toc no corredor lá fora. Ela, enfim. Passos ansiosos rumo à porta. Pausa. Desenho-a vasculhando a bolsa, cada cílio, cheiro, resmungo. A pele macia da mão decidida. Se não achar logo, apertará a campainha.

Estalido de chave girando. Maçaneta que cede, dobradiça que geme. Porta aberta. Ela, meu esboço no espelho. Sorri. Profere o código secreto: Oi Mor, cheguei.

Toc-toc-toc dentro de mim. Eu, vaga-lume. Avesso da angústia.