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Cheshire

A sala sobra para o número de pessoas, ambiente climatizado. Alguns não apareceram, compromissos muitos, reais e imaginários. Quarentas, cinquentas, alguns sessentas. Raul, o anfitrião, zelou pelas amenidades: pães franceses, queijos da serra da Canastra, embutidos espanhóis. Vinhos portugueses, cervejas belgas, temperaturas certas para cada caso.

As vozes moderadas dissolvem-se no flamenco ao fundo. Conversas circulares, risadas de coquetel. Os fumantes na varanda, desclimatizados. Falam um pouco mais alto, parece. Riem um pouco mais alto também, parece.

Sandra, a anfitriã, olha o celular, pede licença, dirige-se à parte íntima da casa. Tranca-se no banheiro da suíte. Levanta a saia, senta no vaso. Retira o pequeno frasco da gaveta, derrama cuidadosa o pó branco nas costas da mão, inspira. Mais uma vez. Seu coração acelera. As pupilas estalam. Navega o celular, escolhe a trilha sonora: Moby. Aperta o botão do volume até a bolinha bater no fim da linha.

I’m gonna find my baby, ooh, before that sun goes down.

Se toca, redemoinho que sobe. Sorri, até o fim da boca. Gata de Cheshire.

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Vaga-lume

O enorme aquário da sala abandonado faz muito, ar onde era água. Restam as pedrinhas no fundo seco, o mergulhador que borbulhava, desbotado. A caravela de porcelana naufragada.

Noite de lua nova, sala escura. João afundado no sofá, idoso em tudo, dormita. Luzia assiste à TV, olhos já pela metade, mas notam o pequeno flash de luz esverdeada. Pousado na cabeça do mergulhador, o vaga-lume pisca. Banha a caravela de esmeralda. Luzia toca suave o braço de João: olha homem, lá no aquário.

Dois pares de olhos que piscam do lado de cá do vidro. Seus rostos antigos, escavados de saudades. Acendem, apagam, acendem, apagam. Luzia, João, João, Luzia. Lume que vem, lume que vai.

Na noite seguinte já são centenas deles. Bailam dentro do aquário, sinfônicos. Paredes, estantes, tapetes, tudo pisca. Pulsa.

A TV desligada. João e Luzia entrelaçados no sofá. Embriagados de luz e brevidade.

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Elevador

A menina estica o braço, alcança a maçaneta, gira. A porta cede, ela ganha o corredor. As hawaianas floridas plec-plec-plec no piso. Espera, filha, tenho que chamar o elevador. O pai preparando a mochila na sala. A mãe no quarto ainda, ocupada com o irmãozinho bebê, que chora, inconsolável.

Plantada em frente à porta da máquina encantada que sobe e desce, ela reflete. Afasta os cabelos, faz um binóculo com as mãos diminutas, espia pelo vidro. Escuridão, só. Franze a testa, aperta os lábios. Suspira.

Elevador! Elevador! grita. Elevador! Nada. Ouve o riso grave do pai. Quer descer correndo pelas escadas, mas a mãe nunca deixa. Espera, filha, o pai já vai aí chamar o elevador. O bebê chora.

Elevador! Elevador! ela grita. Mãos na cintura. E o mundo que nunca obedece.

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Tesourinha [⌘]

Minha ideia de fuga era singela: entrar na tesourinha, permanecer, para sempre. Sair da pista à direita, passar por baixo do viaduto, subir à direita, voltar à pista, descer à direita novamente, passar por baixo do viaduto, subir à direita, voltar à pista, descer à direita. Assim, uróboro. Eterno.

As dificuldades logo se apresentaram. Minha gasolina acabaria em algum momento. Mesmo que eu tivesse enchido o porta-malas e os bancos vazios com galões, só teria adiado o fim. E eu teria que parar o carro no meio da tesourinha pra usar os galões. Não se interrompe uma fuga: ouça Bach.

Outra questão crítica era meu sistema gastroenergético. Para continuar dirigindo, eu teria que consumir água, alimentos. Problemas: 1) uma tesourinha é uma sequência vertiginosa de curvas em espelho, beber e comer causaria acidente elíptico, fatal; 2) meus excrementos – acabaria submerso neles.

Cognitivamente derrotado, emocionalmente exausto, tive que abandonar a tesourinha, voltar pra casa. Ter a tal conversa com a Suzana.

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Bolsa

Domingo, metrô esvaziado. Minha estação é sempre a próxima. Saio do vagão, entro no seguinte, a caixa de doces na mão. Compra pra me ajudar! grito. A venda é rara. E pelo doce, não pela ajuda.

Ela está sentada bem ao lado da porta, cochila. Velha já, cabelo ruivo tingido, óculos verdes, desses de grife. Colarzão, vestido floreado. Toda bacana. A bolsa, enorme, solta no colo.

Facinho. Na hora de trocar de vagão, levo a bolsa. Quando ela acordar, já era. Carteira, celular, chave do apartamento, do carro, tudo lá. Busco a Nati de carrão na feira, a cara de espanto dela, sorrisão. Rodamos. Fumamos um, depois vamos pro apartamento da velha, comer tudo que tiver na geladeira. E beber vinho, muito. Depois transar na cama grande e macia, o ar-condicionado ligado a mil, até cansar. Fumar mais um depois.

Vai ser assim, bem assim.

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Lombada

Daqui tudo que vejo é a lombada. Cem Anos de Solidão. Macondo, tapetes voadores. Úrsula, el coronel Aureliano Buendía. Poeira, bananas, gritos de guerra, a chuva pela janela. Quinhentas páginas, trinta linhas por página, quinze mil trilhas percorridas a olho nu.

Minha arrebatada retina, dilata. Abro o livro? Não, novas trilhas, melhor. A lombada, minha biblioteca silente, as vozes. Cubro os ouvidos. Cantarolo.

Gabo delira, insulta repórteres. Cerra enfim os olhos, a cama qualquer. Os lençóis postos pra lavar. Móveis e objetos preservados, por ora.

Livro que se fecha, redemoinho. Já se vão duzentos mil anos de solidão, estima-se.

A lombada, inquieta lápide.

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Colesterol

Não sei, nunca medi. Então não tenho, tecnicamente falando, diz. O copo de cerveja na mão. O olhar grave sobre a barba grisalha. As bochechas vermelhas. Estamos bebendo desde o início da tarde. Já é noite.

Você pode ter um câncer, por exemplo, continua. Aparece, você percebe. Morre, ou sobrevive. Mas colesterol, não, é uma ficção da ciência, uma das. Que nem glicose, triglicerídeos, essas porras todas que as pessoas medem. Porque os médicos pedem. E os laboratórios festejam. E os planos de saúde engordam. Parasitas.

Emborca o que restava no copo. Abro mais uma, sirvo. Colarinho perfeito.

Comigo não. Gente normal enfarta, fica brocha etc. Assim. Natural. Real. Gosto de alface, brócolis, essas coisas, mas se eu não gostasse, não comia, nem fodendo.  Nunca achei que viver muito fosse uma boa ideia, sabe? É cansativo, e egoísta. A gente tem que dar espaço pra meninada brincar de ser. A fila anda.

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Entrevista

Feita esquadro na estreita cadeira, as mãos unidas sobre o colo, a entrevistada responde sobre sua experiência recente em vendas. Colar discreto, brincos mínimos. Pernas cruzadas, saia preta abaixo dos joelhos, saltos baixos. Blusa florida, sem decote. O rosto maquiado ao milímetro.

O entrevistador escuta. Observa-a por cima dos óculos engordurados. Debruçado, anota. A gravata enovelada sobre a mesa. Os longos pelos do peito escapando pelas frestas da camisa.

Pausa. Ela aguarda, ereta. Imóvel, pisca. O esgar colado no rosto.

Ele se reclina na macia cadeira de altas espaldas. Ajeita os óculos. A gravata agora percorre o torso, cai à direita. Coça o nariz. Pigarra. Funga. Franze a testa. Indaga sobre pretensão salarial.

Ela se remexe, sutil. Descruza as pernas, troca a perna que estava em cima, cruza-as de novo. Reacomoda a saia, discreta. Realinha os ombros. Suas costas doem.

Sorri. Responde.

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Salto

Perfeitamente ereto sobre a ponta da plataforma, ele abre os braços em cruz. Cerra os olhos, inspira, fundo. Recapitula o salto: dois parafusos, dois carpados, o mergulho final. Não há erro possível.

Lá embaixo, o enxame de rostos indiscerníveis. Profusão de mãos que acenam, apontam. Música. Risos?

Salta.

Executa o primeiro parafuso, preciso, autômato. No segundo, sua pele se desprende, toda. Flutua, fantasmagórica. Os jurados não perdoarão, sabe. Executa o primeiro carpado sem o incômodo invólucro, a leveza inédita. Nasce o segundo, nunca tão perfeito.

Cadente, o vento acariciando a carne exposta, termina à perfeição: cabeça, tronco e membros tocam o asfalto no mesmo milésimo de segundo.

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Chuva

Ana vê as nuvens, não dá bola. Deitada de bruços sobre a grama do parque, lê Quintana. Os pés acompanham a batuta dos versos. Esquece até de piscar os olhos.

O primeiro pingo cai-lhe bem na ponta do ombro tão magro. Ana nota, nada faz. A gota fica ali, rotunda, equilibrada sobre a magnética pele negra. Recusa-se a escorrer daquele cume: a vista de Quintana é privilegiada demais.

Vêm as outras gotas. Infiltram-se no denso cabelo de Ana, esborracham-se sobre sua camiseta, seus jeans. Dissolvem-se, eternas mártires do mundo mineral.

Ana no meio do poema, pétrea, não recua. Novas gotas bombardeiam as páginas, insensíveis. Borram as letras, erguem bolhas no papel.

Quintana desfigurado em indiscerníveis tons de cinza, ilegível.

Ana se vira, deita de barriga pra cima, abraça o livro sobre o peito. A chuva vira tormenta. Tudo agora é água.

Olhos fechados, abre um sorriso radiante, impermeável.