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Babel

Enfim aposentados, decidimos construir nossa nova morada na chácara, sair do apartamento, deixar a loucura de São Paulo.

Os desentendimentos não tardaram. 

Pedro queria uma casa toda em um nível só, esparramada no campo. Quartos amplos, salas de estar, jantar e cozinha conjugadas, varandas circundantes. Perguntei se teria esteiras rolantes, essas de aeroporto, para a gente ir de uma peça à outra. 

Fechou a cara. 

Eu queria uma casa vertical, esguia, altiva, terraço com trezentos e sessenta graus de vista para o mato. Com elevador, naturalmente.

E quantos andares, madame? perguntou, de costas para mim, lavando a louça do jantar. Os cabelos brancos, cheios, que eu tanto gostava de afagar.

Quantos o terreno aguentar, respondi. Quando ameaçar afundar, a gente para. Quero fumar tocando o céu. 

Secou as mãos, foi ver TV.

A visita da arquiteta só piorou as coisas. Percebendo o projeto a perigo, ela propôs uma casa plana com uma torre espetada no meio. Um desesperado frankenstein conciliador. Tijolos à vista, ainda por cima. Pedi um prazo para deixar minhas tranças de rapunzel crescerem à altura do projeto. 

Nossa nova casa naufragava, irremediavelmente.

À noite, abraçados na cama, meu nariz afundado naquela nuca branca que eu tanto gostava de cheirar, sussurramos o armistício. Melhor reformar o apartamento. Chácara tem mosca, mosquito. Cobra, sapo, aranha. Mercados distantes, padarias ruins. E um silêncio de enlouquecer. Nem pensar.