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Banho de sol

Tu vem hoje ver esse teu velho pai, minha filha? Precisamos conversar.

Como tu bem sabe, o Mauro tem bom coração, mas vive nas nuvens. Coisas aleatórias entram na cabeça dele, empurram as que estão acontecendo pra fora. Me colocou pra tomar sol e esqueceu da vida. Quarei muito mais tempo do que podia, fiquei tonto, embaralhado. Tua mãe apareceu, sentada no muro, sacudindo as pernas feito menina, sorrindo pra mim. Ela nunca fez nada do tipo quando era viva, tu bem sabe. Em seguida ficou em pé, abriu os braços, deu um salto mortal – saia esvoaçando e tudo mais –, pousou ereta sobre o muro, impecável. Ficou parada, me observando, aqueles olhos serenos dela. Me chamando pra subir.

Gritei. O Mauro veio correndo, esbaforido.

Tu vem hoje, minha filha? Precisamos muito conversar. E traga uma escada, por favor.