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Bar do Nicolau

Duas da manhã, TV ligada, depressão a galope. Tadeu esfrega os olhos vermelhos. Pega o telefone, liga pro Bar do Nicolau. Pede pra falar com o Josias.

Diga que é Tadeu, da mesa sete. É urgência.

O caixa acena, aponta pro telefone. Josias vem, descansa a bandeja no balcão, seca as mãos na casaca, atende. Sorri. Prazer em falar com o senhor, seu Tadeu. Sentimos sua falta hoje.

A conversa se estica. Seu Nicolau observa, impaciente: bar lotado, um garçom a menos, que palavrório sem fim é aquele? Batuca o relógio de pulso com o indicador, esbugalha os olhos empapuçados, ergue as palmas pro teto. Josias encolhe os ombros, cobre o bocal do telefone, explica: é seu Tadeu, da mesa sete.

Tadeu já se sente melhor. Desliga a TV. Talvez até durma. A conversa avança. Josias puxa a banqueta com o pé, senta, afrouxa a gravata borboleta, ajeita os cotovelos sobre o balcão, troca o telefone de orelha.

Seu Nicolau se afasta, conformado.

A madrugada amolece.