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Besouros

Noite de lua nova no pátio da casa-grande. Brincávamos sob a luz do poste, enxameada de besouros. Corujas piando, mato, breu. Eu, menino de apartamento em Ipanema, gastando as férias na fazenda dos parentes em Minas Gerais. Ele, Juca, filho do caseiro, habitante da casa-pequena, encravada lá no sopé do morro. Pulávamos para pegar os besouros dopados de luz antes de se esborracharem no chão. Só valia ponto se pegasse assim, no ar. 

Eu saltava, canhestro, Ipanema pesando nas pernas. Não conseguia um mísero ponto, a frustração vermelha nas bochechas que só crescia. Juca subia, levitava, os besouros zunindo direto para suas palmas ásperas, certeiras. Ponto, ponto, ponto: glória de Juca, aquele sorrisão lindo, iluminando meu desespero. Eu tentava em vão pular mais alto, agitava patético minhas mãos de veludo.

Menti que estava cansado, não queria mais brincar. Sentamos na escadaria da casa-grande. A humilhação entranhada em mim. Falei então que eu ganharia facinho se a brincadeira fosse outra, de quem pegava mais onda, lá em Ipanema. Aí sim, só daria eu, podia saber. 

Juca se animou todo.

— Você me leva? Nunca entrei no mar. É salgado mesmo?

Calei. 

Juca esperou pouco. Desceu a escadaria, parou embaixo do poste. Saltou. Pegou mais um besouro impossível, em pleno voo.