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Borboletas

Confinada à cadeira de rodas, já se vão sete anos em silêncio. O vestido bege, os cabelos brancos, macios de algodão. O olhar passado, lacrimoso, fixo na janela que dá pro jardim.

Numa ensolarada manhã, dispara a soluçar borboletas. Às dezenas. Primeiro as brancas, arredondadas, que pululam nos campos. Logo as amarelas, elípticas, das matas úmidas. Em seguida as vermelhas, barrocas, dos sonhos de adolescência.

O velho marido, atônito, enxota-as pra a rua, fecha as janelas. Então percebe de onde vêm. Pasmo, ajoelha-se, beija aquelas mãos frias, quebradiças, afaga os cabelos de neve. Chora. As asas coloridas estampando-lhe a antes branca camisa.

Passam-se dias, casulos.

Certo entardecer, ela soluça borboletas marrons, enormes, veludas. Ele se preocupa. Dá chá de boldo, reforça a sopa. Dorme no sofá, sentinela.

Mãos sobre a barriga, ele sonha. No sopé da cascata, a borboleta azul flutua, cintila, sol molhado. Pousa na cadeira de rodas vazia. Aguarda a janela que dá pro jardim.