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Cadeado

O barracão nos fundos do pátio. Fosse àquele tempo, a pequena chave surrupiada da gaveta do Pai bastaria. Agora o cadeado requer pé de cabra, algum suor. Óxido ocre-verde que se esfarela.

A velha porta de madeira, conhecida sentinela. Queremos abri-la? Lá dentro em tudo o Pai que falta, a poeira densa, as teias da ausência. Palimpsesto.

Não é lugar de criança, dizia.

A mesa de cedro estará lá. Formão, martelo, grosa, dispostos à Sua meticulosa maneira. Sobre ela, a obra inacabada: andrógino torso, os braços decepados. Nosso pasmo infantil.

A chave proibida ardendo oculta nas nossas mãos de brincadeiras. O cadeado que abria, fácil. E se Ele chegasse do escritório mais cedo?

Por certo sabia. Nosso cheiro ainda fresco no ar amadeirado do barracão, as pequenas pegadas na serragem do chão. Só não queria estar presente enquanto descobríamos seus outros filhos, talhados à sua imagem.