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Caixas

Parece que cochila, mas não. Joel vigia firme as caixas de papelão. Piscar só por necessidade. Já se vão quinze anos na loja 15A do subsolo. Joel, as caixas, a única lâmpada no meio do teto, grossa de pó. Bicho não tem, ele passa veneno nos cantos todos, semana sim, semana não.

Sentado no estrado forrado de espuma, aguarda a clientela. Cidade grande, todo santo dia tem gente se mudando. Pouco dinheiro, muita bugiganga. Caixa nova é cara, então eles sempre vêm, pelas usadas. Joel achata, separa por tipo, tamanho, espessura. Coloca as rotas num canto, para algum desesperado. 

Caixa é um mundo. Tem as que a fita gruda bem, as que não. As de ovo, que chegam em quantidade, têm dois buracos de cada lado, pro respiro. Os clientes acham ruim. Joel troça, diz que ovo tem medo do escuro, por isso. Tem cliente que ri, outros não. Reviram as caixas, desarrumam, o nervoso óbvio. 

Não sabem o que fazer com o tralheiro que têm em casa, o que vai dentro do quê. Tanta coisa inútil, cada uma dum formato diverso. Das que quebram, das que não. Mudança é assim, desmancha, avacalha. Muitas vezes, matutando no estrado, Joel se imagina embalando, encaixotando, mostrando pra eles direitinho como se faz. Cada coisa no seu lugar de natureza, tudo pensado, certo, no detalhe. 

Mas que nada! Povo não paga por um serviço desses não. Vale coisa nenhuma. Preferem ficar assim, testa franzida, revirando caixas, resmungando, se perguntando se cabe, se não vai quebrar. 

Vai.