Categorias
Narrativas

Cão de guarda

Eu me divertindo no bar do Elias quando você chega, língua de fora, olhar escorrido. Focinhada sutil na minha saia. Sacode o rabo, sedutor.

Lanço o pedaço de linguiça. Nhac, sua bocada justa, irremediável. Nossa primeira comunhão. Você senta, decidido, aguarda a noite passar.

Eu talvez embriagada, dirigindo, você instalado no banco do carona, comedido. As luzes da cidade passando pela janela. Cão da ribalta.

No apartamento, mostro seus novos aposentos. Você grunhe, feliz. Late. Deita, a cabeça entre as patas, o rabo espanando o chão.

Por que esses olhos, imagem e semelhança? Minha mão se aproxima, cautelosa. Afago a suspeita que não me abandona: que você foi homem, morto a espada, reencarnado até me encontrar assim.