Categorias
Narrativas

Babel

Enfim aposentados, decidimos construir nossa nova morada na chácara, sair do apartamento, deixar a loucura de São Paulo.

Os desentendimentos não tardaram. 

Pedro queria uma casa toda em um nível só, esparramada no campo. Quartos amplos, salas de estar, jantar e cozinha conjugadas, varandas circundantes. Perguntei se teria esteiras rolantes, essas de aeroporto, para a gente ir de uma peça à outra. 

Fechou a cara. 

Eu queria uma casa vertical, esguia, altiva, terraço com trezentos e sessenta graus de vista para o mato. Com elevador, naturalmente.

E quantos andares, madame? perguntou, de costas para mim, lavando a louça do jantar. Os cabelos brancos, cheios, que eu tanto gostava de afagar.

Quantos o terreno aguentar, respondi. Quando ameaçar afundar, a gente para. Quero fumar tocando o céu. 

Secou as mãos, foi ver TV.

A visita da arquiteta só piorou as coisas. Percebendo o projeto a perigo, ela propôs uma casa plana com uma torre espetada no meio. Um desesperado frankenstein conciliador. Tijolos à vista, ainda por cima. Pedi um prazo para deixar minhas tranças de rapunzel crescerem à altura do projeto. 

Nossa nova casa naufragava, irremediavelmente.

À noite, abraçados na cama, meu nariz afundado naquela nuca branca que eu tanto gostava de cheirar, sussurramos o armistício. Melhor reformar o apartamento. Chácara tem mosca, mosquito. Cobra, sapo, aranha. Mercados distantes, padarias ruins. E um silêncio de enlouquecer. Nem pensar.

Categorias
Narrativas

Sentinela

A noite feita pra dormir, só eu que não sabia, menino bobo. Tá na hora, dizia a mãe, eu querendo mais TV com ela, não podia. Achava ruim, fazia manha na cama, mal sabia o que me esperava, agora esse emprego de porteiro noturno nesse condomínio enorme, só mora aposentado, verdadeiro cemitério depois das dez. Como é que um cristão não vai ter sono? E essa câmera bem em cima de mim, outras tantas em tudo quanto é canto, só no banheiro não tem, acho. Se cochilar, me ferro, a síndica manda embora na hora, não vai nem olhar na minha cara, pode saber. Mulher seca, azeda. Mal sabia eu, menino bobo, mal sabia eu. Tão feliz que eu era com a mãe, não entendia o tamanho da coisa. Não dormir à noite é coisa pra coruja, morcego, não se faz isso com um cristão, não se faz. É que emprego tá difícil, e tem o adicional noturno, a gente se dobra, trai a memória da mãe, toda carinho, aqueles olhos mornos dela, eu todinho dentro deles. Mãe minha, mãe minha, que bruta saudade, pra que ir pro céu tão cedo? Vou ficar maluco aqui nessa guarita, pode saber, miolo vai secar, vou acabar rasgando dinheiro na parada do ônibus. Ontem fiquei imaginando um furgão parado bem aqui na frente, uns caras de fuzil brotando dele, pulando o muro, invadindo as casas, tiros, gritaria. Eu dando entrevista pra TV. Nada. Não passa uma viva alma na frente desse condomínio, só o gato, um só, bicho metódico, toda noite por volta das três. Como é que um cristão não vai desmaiar de sono nessa situação? No outro condomínio, lá do final dessa rua sem fim, tem TV na guarita, eu vi na passagem, bem pequena, mas tem. Síndico de lá tem até coração, aqui só azedume. Aqui nada pode, nem no celular, tenho que ficar no silêncio olhando fixo a rua de pedra, sentinela, torcendo pra passar o gato, o grande acontecimento da minha noite. Essas horas que nunca terminam, meu miolo vai encolher, se acostumar com o olho sempre aberto, ardido, desaprender de dormir. A mãe mexendo no meu cabelo, me contando história, me rendia loguinho. Sono ferrado de menino, sem passado na cabeça, leve que só. Nascido de novo toda manhã. Agora não. Passo a noite de olho vidrado, seco, chego em casa o sol já alto, incomodando, eu zonzo, os passarinhos acordados faz horas, não dão trégua, algazarra de bicho feliz. A cortina do quarto que não fecha direito. Peguei nojo de passarinho. Ódio. Não é justo com um cristão ficar abandonado com os pensamentos por tanto tempo. Não é de Deus. Adicional noturno dos infernos, a gente se vende, tem as contas, dinheiro que sempre falta. Não tem como não pensar besteira, remoer passado, pegar cacoete de coçar o olho. Querer ser menino de novo. O gato. Acabou de passar. Agora é só silêncio, depois o sol.

Categorias
Narrativas

Mapa de família

Nosso pai morreu, tristeza aguda, uma semana depois do câncer levar a mãe. Veio o luto, forte, em seguida a herança: casarão em bairro nobre, carros, muito dinheiro no banco. Muito. Rute e eu no frescor dos vinte e poucos anos, ricos e sós de uma hora para a outra. Sentados na sala de estar, a modorra flutuando em volta, ela disse quero conhecer o Brasil todinho, cada palmo. Cada palmo não dá, mas cada cidade, suponho que sim, falei. Espalhamos o velho mapa do pai no chão. Rute pesquisou na internet: cinco mil, quinhentos e setenta municípios. Caralho! falei. Fiz a conta: ficando só dois dias em cada um, são trinta anos de viagem. E daí? ela disse. A gente tá bem novinho ainda.

Partimos. Começamos pelo Norte, vasto. Calor sem trégua, chuva de balde. Estradas interrompidas, balsas. Trezentos e sessenta graus de mato, bicharada cruzando a pista. As cidades maiores empurradas para o final da fila. Vagamos por ruelas, descansamos em bancos de praça, espiamos igrejas. Muita cerveja, quilos de conversa fiada jogada fora com quem nos desse trela. O povo todo intrigado daquela viagem infinita nossa.

Depois Centro-Oeste, Nordeste. Cerrado, sertão, mar de sonho. A Rute sempre atualizando a planilha. A gente não podia pular cidade, nem repetir, era compromisso sagrado nosso. Sem planilha não tinha como. Os anos passando, embaralhando ruas, casas. Uma massa só na memória entulhada. Milhares de novos conhecidos, amigos, amores até. Deixados para trás. Nossa mão única. A estrada sempre à frente.

Sudeste quase todo rodado. Quantas falta? eu perguntava. Rute consultava a planilha amarelada, dizia na hora, precisa. Sorriso ansioso.

Cigarros, janelas abertas para o vento entrar. As rugas se aprofundando nos cantos dos olhos dela. Meus cabelos grisalhos enchendo o retrovisor.

No Sul, o inverno. Campos geados. Rodas de chimarrão. Muita estrela no céu.

BR 471, alguns quilômetros para chegar ao Chuí. É a última, avisou Rute, a voz tremida. Os olhos pregados na planilha, piscando. Parei o carro no acostamento. Saímos. O vento polar rasgando o rosto. Puxei um cigarro. Fumamos meio a meio, apertados um no outro. O campo se espalhando até o fim do nosso mundo.

— Teu celular tá com sinal?

— Sim — ela disse.

— Então vê aí pra mim quantas cidades tem no Uruguai.

Categorias
Narrativas

Jardim

Décimo quinto andar, varanda vazia. Irineu começa com um vaso de manjericão. Prova folhas. Degusta as delicadas flores. Suspira. Decidido: será um jardim de temperos.

Compra mudas de alecrim, sálvia, tomilho, orégano, pimentas várias, coentro, tudo que encontra. Hortelã. Encanta-se por um pé de funcho. A varanda agora abarrotada, verdeja. Os aromas se entrelaçando, embriagantes. Irineu rega, masca folhas, morde ramos. Temperado por dentro, por fora.

Os pulgões não tardam. Tampouco os fungos. Chegam as formigas alpinistas. Irineu compra o veneno mais forte da loja, borrifa tudo, as mãos trêmulas, os olhos esbugalhados. Mastiga folhas aos punhados, engole pimentas inteiras. As lágrimas viscosas, avermelhadas. Adoece. Uma semana se revirando na cama, a baba grossa, verde. Alucinações.

Décimo quinto andar. Sol, chuva, sol, chuva.

Irineu melhora. Consegue enfim se arrastar até a varanda. O choque: as pragas findas, mas o jardim mutilado. Entre a legião de cadáveres desidratados, as poucas sobreviventes, suas trágicas exuberâncias. Irineu murcha. Pasma. As mãos espalmadas sobre os ralos cabelos. O céu límpido, indiferente.

A noite pousa. Nos arranha-céus vizinhos, janelas insones.

O sol se esgueira pela basculante. Sentado à mesa da cozinha, Irineu come o pão do novo dia. A mão mecânica à boca, a mastigação bovina. Na varanda, pássaros pousam no parapeito. Espiam. Saltitam. Chilreiam. Recolhem gravetos para o novo ninho.

Categorias
Narrativas

Refogado

A semana começa com Vítor ligando cedo pela manhã em plena segunda-feira. Ele imerso em mais uma crise existencial-emocional-confusional, questionando a relação, se não seria melhor darem um tempo etc. etc. etc. Conversam por mais de hora. Simone ouve, pouco fala. Sugere uma pausa de uns vinte anos, para poderem avaliar com calma a situação. Ele se irrita, desliga.

Na terça Simone vai ao cinema sozinha. Come sozinha o maior balde de pipoca que o quiosque oferece. Ri sozinha na sala escura. Retorna sozinha à pensão. Dorme sozinha. Feito pedra.

Na quarta Vítor volta a ligar, como sempre faz. Simone ouve. Profere uma palavra oca aqui, outra ali. Não, não quer encontrar para conversarem. Desliga. Muito trabalho no restaurante, sem tempo. O dia zune. Tarde da noite, ela chega exausta na pensão. Dorme de uniforme.

Na saída do expediente da quinta, lá está Vítor de sentinela na mureta. A cabeleira preta, encaracolada, os ombros ossudos encolhidos. Olhar de cachorro querendo passear. Simone sobe na garupa da moto, rodam pela avenida Brasil. Param na Trípoli: dois kebabs da casa, dois guaranás. Silêncio. A noite no apartamento dele. Sexo.

Na sexta Simone não atende o celular. Dia dos Namorados, loucura total no restaurante. Por sorte tem uma pá de gente sozinha nesse mundo, seria ainda pior.

No sábado também não se encontram. Garçonete Simone de folga, enfermeiro Vítor de plantão. Ela perambula pela rua: praça, sorvete, shopping, livro na bolsa. Gasta o dia. Deitada na cama da pensão, não consegue dormir. Espinhos sob as pálpebras.

No domingo almoçam no apartamento dele. Reclinado sobre o fogão, Vítor prepara o molho. Simone atrás, na banqueta, vigia. Tão comprido, desengonçado, a linda cabeleira preta. A calça jeans surrada, os fundilhos caídos. A camiseta listrada que ela deu. Concentrado, move lentamente a espátula. Um cheiro doce, de tomate maduro, invade a cozinha.

Categorias
Narrativas

Sucesso

Tadeu, desempregado, assiste à palestra. Auditório amplo, lotado. O orador, baixo, calvo, os cabelos que restam lambidos para trás, caminha em círculos pelo palco. Terno e gravata sobrando no corpo franzino. Fala sobre as leis do sucesso. Gesticula, aponta. Ajeita os óculos sobre o longo nariz.

Mãos cruzadas sobre o colo, Tadeu pisca. Leis para o sucesso. Não sabia que existiam. Força a atenção, os olhos pesam. A cabeça fugindo, as contas em aberto: água, internet, a escola da Clara.

Networking, foco, autoconfiança, iniciativa, liderança, imaginação, entusiasmo, autocontrole, proatividade, carisma, visão, racionalidade, concentração, cooperação, tolerância, empatia. A legislação cresce. O palestrante fala, incessante. Gestos largos. Ajeita os óculos. As gotículas de suor brilhando sobre a testa.

Achava que leis eram outras coisas. Tadeu remexe-se na cadeira, desgruda a camisa da barriga. Gente demais, o ar-condicionado não dá conta. Olha em volta. Pessoal no celular. Uma moça na esquerda cochila. Nas filas da frente, uns caras anotando tudo. As mãos frenéticas. Proativas.

Quer sair dali. Mas chegou cedo, está sentado bem no meio, auditório abarrotado, fileiras estreitas. Vai ter que pedir licença para um mar de gente, acabar pisando no pé de alguém. Então fica. Pisca. Tira o celular do bolso.

Categorias
Narrativas

Cerrado em águas

A centena de dias sem chuva liquidou capim, grama, todos os rastejantes do mundo vegetal. Resignados à hibernação, aguardam, desidratados, melancólicos, as primeiras gotas, que tardam. Árvores de folhas que se manterão verdes, alimentadas por raízes profundas, pairam indiferentes à desgraça alheia. Para a ralé vegetal, o renascimento é sentimento longínquo. Ilusão catastrófica, típica de quem sofre: a chuva virá, como sempre vem. A glória verde retornará, alucinada, absurda. Milagre silencioso de todo santo ano.

Enquanto as gramíneas lamentam as águas de outubro que não chegam, os ipês competem. Quantas luxuriantes flores amarelas, roxas ou brancas pode um galho franzino suportar? Atletismo sem limites, mas nessa seara exagero nunca é mau gosto. Múltiplas copas explodindo em cor, olhares vidrados, boquiabertos. Esgotadas as forças, os ipês derramam suas cargas ao solo. Expressionismo sem pincel: o vermelho argiloso do chão, o ocre das folhas secas, tingidos de amarelo despudorado, roxo introspectivo, branco celestial. De fazer Van Gogh arrancar a outra orelha.

A chuva tarda, sábia.

No subsolo, entre raízes, os cantos estridentes que anunciarão as águas maturam. Brotarão do chão desidratado, escalarão com pernas trêmulas os troncos rugosos, romperão às dores suas armaduras de quitina. Voarão. Agarradas aos galhos despidos, as cigarras clamarão sem trégua pela sacra umidade. Tantos anos de espera sob a terra, a morte agora tão próxima, não é para menos. Quando as águas finalmente vierem, saberão que não libaram em vão. Por ora, tudo é angústia.

A chuva enfim desce. Começa incerta, tateia, depois jorra. Ensopa a grama, encharca as cigarras. Escorre pelos troncos indiferentes. O verde brota, invade o mundo. Monocromeia, monotoniza. Traz com ele o luto da flor.

Categorias
Narrativas

Máscaras

No sonho, ao final do plantão, quando Mateus tirou a máscara, seu nariz havia sumido. A boca também. Manteve a calma. Pudera, ponderou, passei a noite inteira sem respirar direito, correndo de um leito para o outro. O que a gente não usa, atrofia, depois some. Supôs o mesmo para a boca: não teve tempo de comer nada todo o plantão. Só podia dar naquilo.

Mas logo inquietou-lhe o futuro. Sem nariz, sem perfume? Luana adorava, tinha uma dezena deles, pedia sempre que tentasse adivinhar qual era. Nunca acertava, mas era tão bom… E tinha tanto prazer em comer sem freios depois de um plantão, enterrar as privações numa pizza tamanho GG, numa macarronada fumegante. Ah, o clássico bife à parmegiana do bar do Manoel… Sem boca, como faria?

Acorda, sobressaltado. Leva a mão ao rosto, apalpa. Plástico. Tubo. O enfermeiro mascarado pedindo que se acalme, que não toque o respirador.

Categorias
Narrativas

Dulcineia

Bastaram uns poucos meses morando com Dom Quixote para Dulcineia se dar conta do tamanho do equívoco. Deixara-se dopar por aquele par de olhos turvos, que a enxergam sempre divinamente bela. Não quer, nem jamais quis, beleza alguma. Deseja é plantar, colher, vender seus produtos orgânicos na feira ecológica de La Mancha. Seu corpo sempre foi instrumento, nunca fim.

Dom Quixote não entende, louva sem trégua seus atributos de musa, dedica-lhe poemas apaixonados — repletos de constrangedores clichês — todo santo dia. Declamados aos brados no quarto, na cozinha. Uma tortura. E Dulcineia ainda tem que conviver com aquela armadura medonha, sempre atirada pela casa.

Paz só tem mesmo quando ele sai campo afora com Sancho para as tais aventuras. Somem por dias a fio, uma bênção! Pela janela da sala, Dulcineia os observava encolherem no horizonte. Ele alto, magro como um poste. Sancho atarracado, as redondezas saltando das calças justas. Conversas gesticuladas, infinitas. Aqueles dois sim, talhados um para o outro.

Categorias
Narrativas

Labirinto

É o sebo mais antigo da cidade, muita coisa rara, garantiu o Lucas. Tenta lá.

Caminho pela Dom Pedro II, localizo a entrada. No umbral, a placa esmaecida: Caleidoscópio. Escada estreita, íngreme, mergulhando para o subsolo. Cheiro forte de mofo, rangidos a cada passo.

A sala pouco iluminada é ampla, pé-direito baixo, as torres de livros brotam desordenadas do parquê, tocam o teto. Há passagens para salas anexas. Espirro. Meus olhos comicham. Ninguém à vista. Esgueiro-me entre as prateleiras.

Pois não?

A voz é grave, de homem velho. Não o vejo.

Procuro Poemas de outono, de Afrânio Sampaio, digo.

Silêncio.

O livreiro surge de trás de uma das prateleiras. Baixo, grisalho, amarrotado. Coça a barba, pensativo. Murmura que talvez tenha, acha que lembra desse nome. Livros demais, memória de menos, diz.

Acompanho-o a uma das salas anexas. Ao fundo, uma grande massa de livros derramados. Espirro. Minha garganta formiga. Meus olhos ardem. Ele revira a pilha, inspeciona capas, os óculos se equilibrando na ponta do nariz. Talvez o vô Afrânio nunca tenha escrito o tal livro. Mentia muito, dizem. Inventava a própria vida. Versos declamados nas festas de família. Ecoam na minha cabeça, irrecuperáveis. O velho livreiro persiste. Meus olhos não param de lacrimejar. Minha garganta arde.