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Sísifo

Manhã ensolarada no parque. Jovens estirados na grama, cachorros inquietos, atletas circulares. Caminho em direção aos aparelhos de ginástica.

Posiciono-me. Espio o céu. Respiro fundo, seguro firme a barra, ergo o corpo. Inspiro, expiro. Vinte. Solto. Admiro meus braços dilatados. Mais vinte. Fartos gomos que se remexem sob minha pele fresca. Mais vinte.

A exaustão chega, volto pra casa.

Entardeço à tela do computador. Meus braços agora murchos, esquálidos. Cruzo-os sobre o peito, apalpo minhas carnes moles, os ossos pontudos. Adormeço no sofá. Sonho penhascos.

Manhã nublada no parque. Volto aos aparelhos. Posiciono-me. Respiro fundo. Vinte. Solto. Mais vinte. Afago meus braços intumescidos. Mais vinte. As grossas veias saltando sob a pele tensa. Mais vinte.

Chega a náusea. Aperto os olhos. Vultos. Arrasto-me para casa.

Anoiteço sobre o teclado. Esfrego meus olhos de areia. Vejo braços finos, desidratados. Meus ossos quebradiços. Adormeço na cadeira. Sonho deslizamentos.

Amanhece. Sol intenso. No parque, casais sentados nos bancos, pipoca, tartarugas inertes sobre pedras, crianças pulando na areia. Na cama, eu. Meus longos braços de chumbo. Posiciono-me. Respiro fundo. Zero. Solto-me. Aguardo a chegada da pedra.

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Zafu

Nosso Mestre desapareceu. Seu zafu jaz vago à nossa frente. Perplexos, meditamos hipóteses.

O Mestre deve ter se desmaterializado. Habita agora cada átomo desta sala. Alguns entre nós conseguem sentir sua inspiradora presença ao tocarem o chão.

O Mestre deve ter pressentido o fim, se recolhido à natureza para a derradeira, solitária meditação. Orvalho, brisa, aurora. Seu corpo evaporando lentamente sobre a relva.

A ausência do Mestre paira densa em nosso ar. Gira, gira, exibe suas múltiplas facetas.

Meditamos angústias.

Ontem tive uma visão do Mestre. Ele estava sem o samuê: vestia camiseta, jeans, tênis. Vagava pela rua de pedestres apressados, ambulantes, gritos, buzinas. Fumava, alheio. O cabelo crescido. Seus olhos úmidos, avermelhados. Vazios de todos nós.

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Cadeado

O barracão nos fundos do pátio. Fosse àquele tempo, a pequena chave surrupiada da gaveta do Pai bastaria. Agora o cadeado requer pé de cabra, algum suor. Óxido ocre-verde que se esfarela.

A velha porta de madeira, conhecida sentinela. Queremos abri-la? Lá dentro em tudo o Pai que falta, a poeira densa, as teias da ausência. Palimpsesto.

Não é lugar de criança, dizia.

A mesa de cedro estará lá. Formão, martelo, grosa, dispostos à Sua meticulosa maneira. Sobre ela, a obra inacabada: andrógino torso, os braços decepados. Nosso pasmo infantil.

A chave proibida ardendo oculta nas nossas mãos de brincadeiras. O cadeado que abria, fácil. E se Ele chegasse do escritório mais cedo?

Por certo sabia. Nosso cheiro ainda fresco no ar amadeirado do barracão, as pequenas pegadas na serragem do chão. Só não queria estar presente enquanto descobríamos seus outros filhos, talhados à sua imagem.

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Mariposas

Conta-se que subiram lado a lado a longa escada em espiral, atingiram o cume do farol. Ofegantes, agarraram-se ao parapeito, inspiraram o mar aberto, vento e sal.

Uma retirou o livro da sacola, a outra se aproximou, ombro a ombro. Afagaram a capa de couro, baixos relevos, tempo, toque. Folhearam, as páginas amarelo-ouro tingindo as pontas dos dedos.

Recitaram, uníssonas.

Chegada a noite, lançaram o livro ao ar, mar, vento. Frágeis, as páginas se despedaçaram, flutuaram. Mariposas do Verbo, bateram asas por toda a Terra. Eloquentes, acasalaram-se, aleatórias, promíscuas. Desovaram, descontroladas.

Ovos que se afundam, larvas que brotam, se recolhem, casulos que não tardam. Rompem-se em múltiplas cores, ânsias, luz, ar, mar.

Uma pousa aqui, asas bem abertas.

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Mãos

Ele aguarda. Marcaram às doze no restaurante de praxe, ela chega doze e quinze, beijo breve na boca, senta-se, ajeita-se na cadeira, a mão direita acomodando os cabelos atrás das orelhas, a esquerda oferecida à dele sobre a mesa, palma pra cima. Ele repousa a mão sobre a dela.

Doze anos daquele gesto: ela oferece a palma esquerda, ele a cobre com a mão direita, ela aperta, leve, apenas mais que um toque. Hoje não: a mão dela jaz inerte sobre a mesa, a dele por cima, náufraga.

Então ele soube.

Aperta. No rosto dela, o alarme confuso daquela pressão inédita, a mão recolhida em reflexo, o sorriso sem alegria. Ela chama o garçom, pedem o de praxe. Alimentam-se, trocam cotidianidades, inofensivos. Pagam a conta. Combinam o horário da volta para casa.

A larga avenida, três pistas de cada lado. Ele dirige em silêncio, as mãos firmes no volante, repassa o trajeto, doze anos, quando? Ela observa carros pela janela, cabeça escorada no vidro, as mãos pousadas no colo, entrelaçadas, a esquerda firme sobre a direita.

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Epidemiazinha qualquer

Apartamentos sobre apartamentos. Mulheres, homens, crianças entre paredes. Amor, vigiar, penar. Gritos. Nenhum cantar.

Lá embaixo, a enfermeira mascarada vai depressa. O entregador sem máscara vai depressa. O homem sem máscara se exercita, devagar. A mulher mascarada passeia com o cachorro, devagar. O porteiro perambula, devagar, a máscara pendurada no pescoço.

Devagar… as janelas olham para dentro, assombradas.

Eta vida comprida, meu Deus.

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Lift facial

Observa-se ao espelho. Seu rosto na plena lisura dos vinte, impecável topografia. Toca a testa, sente o nariz, as frescas bochechas. Cobre a boca tenra com a mão. Cerra os olhos.

É chegada a hora.

Começa pela barba. Será espessa, regular. Os fios grisalhos entremeados aos negros. Dos cabelos deixa apenas as raízes mais profundas. Alvos, finíssimos, desgrelháveis à mínima brisa. Unta, penteia-os para trás, elmo prateado.

Talha olhos venosos, o vermelho túmido brotando sob o branco pasmo. Pardos na íris, abismos nas pupilas. Sulca a testa, os cantos. Escava valos na pele árida, rumo à boca, pálida, abre caminho para as águas salobras.

Admira-se ao espelho.

Pronto. Que venham.

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Azul de mar

Deslizo pelo paraíso, modorra azul. As nuvens lá embaixo, acolchoadas. Serviço de bordo concluído, tripulação recolhida. Sozinho na fileira de três assentos, bocejo.

Do nada, o solavanco. Meu resto de vinho tinto se espalha no ar. Bato a cabeça no teto. Caio de costela sobre o braço do assento. Dor. Gritos ao redor.

Segundo solavanco, mais violento. Arremessado ao corredor, fico preso entre as fileiras. Sinto sangue na boca, os braços dormentes. Meu coração se debatendo na traqueia.

Terceiro solavanco. Explosão. Cheiro de fumaça. Pensamentos catastróficos. Tripulante correndo por cima de mim.

Escorrego paraíso abaixo. Atravesso nuvens. Entalado entre as fileiras, eu, comigo mesmo, nenhuma companhia, nenhuma distração. Burburinho sumindo ao fundo, estranha paz se assentando em mim. Pela escotilha, vejo o céu, azul de mar. Lindo de morrer.

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Perfume

Meus quinze anos são ridículos. Ela fez quarenta, contou pra turma. Cantamos parabéns. Dezesseis anos de magistério, acrescentou, orgulhosa. Boca, voz, veludo. Já dava aula de matemática antes d’eu nascer.

Silêncio na sala, fazemos os exercícios. Ela ondula entre as carteiras, magnífica. Essas equações dos infernos não têm resultado, nem fim! Saio do eixo, remexo as pernas. Ela percebe, se aproxima, toca meu ombro, oferece ajuda. Minha situação só piora.

Nem em casa ela me dá sossego. Usa esse perfume morno que gruda em mim. Tomo banho, esfrego, não sai.

Meu pai tem mania de santo. Quadros, estatuetas, tem pela casa toda. Encaro Santo Antônio no corredor. Pergunto por que ele deixou eu nascer tão tarde, por que arruinou minha vida amorosa pra sempre.

Santo Antônio me encara, oco de respostas.

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Banho de sol

Tu vem hoje ver esse teu velho pai, minha filha? Precisamos conversar.

Como tu bem sabe, o Mauro tem bom coração, mas vive nas nuvens. Coisas aleatórias entram na cabeça dele, empurram as que estão acontecendo pra fora. Me colocou pra tomar sol e esqueceu da vida. Quarei muito mais tempo do que podia, fiquei tonto, embaralhado. Tua mãe apareceu, sentada no muro, sacudindo as pernas feito menina, sorrindo pra mim. Ela nunca fez nada do tipo quando era viva, tu bem sabe. Em seguida ficou em pé, abriu os braços, deu um salto mortal – saia esvoaçando e tudo mais –, pousou ereta sobre o muro, impecável. Ficou parada, me observando, aqueles olhos serenos dela. Me chamando pra subir.

Gritei. O Mauro veio correndo, esbaforido.

Tu vem hoje, minha filha? Precisamos muito conversar. E traga uma escada, por favor.