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Terapia

Sessão 1: Ontem rompemos, enfim. Relacionamento mutuamente abusivo, sabe? Alívio enorme.

Sessão 2: Conversamos. Transamos, na verdade. Vai ser só sexo daqui pra frente. Sábia decisão.

Sessão 3: Tudo muito claro, sabe? Ambos vendo outras pessoas. Conversamos sobre isso. Libertador.

Sessão 4: Não deu as caras ontem. Estranho.

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Partes

Cada semana ele perdia uma parte. Depois de velho deu pra querer chamar atenção, ela pensou, impaciente.

Foi-se a orelha direita. Não ouve bem mesmo, não vai fazer falta, resmungou. Deve estar se achando um Van Gogh.

Na semana seguinte, foi-se o pé esquerdo. Na outra, a mão direita. Depois o nariz. Ela se irritou: aquilo já estava passando dos limites. Para com essa exibição ridícula! ordenou. Em vão. Foram-se os olhos. Os braços. Pernas. Pescoço.

Restou somente a cabeça, lisa como um ovo.

Encolhida no sofá, ovo apertado contra o peito, ela enfim chove.

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Vigília

O Pai adormecido na poltrona da sala. O cigarro aceso entre os dedos inertes, a fumaça escorrendo pro teto. A cinza longa, recurvada, ponto de queda. Se a bagana cair no tapete, labaredas.

Aproximo-me, passos de gato. Subtraio o cigarro, bato a cinza, enterro a bagana no cinzeiro. O Pai dormindo, fundo. A boca entreaberta. O suave roncar.

Afasto-me.

Quando acordar, nada restará do meu gesto. Pensará que colocou a última bagana da noite no cinzeiro, como sempre fazia. Então não houve o perigo, outros mundos em chamas, melhor assim. Amanhã será apenas mais um dia seu a atravessar sem pressa, a margem de lá sob a névoa, à espera.

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Bar do Nicolau

Duas da manhã, TV ligada, depressão a galope. Tadeu esfrega os olhos vermelhos. Pega o telefone, liga pro Bar do Nicolau. Pede pra falar com o Josias.

Diga que é Tadeu, da mesa sete. É urgência.

O caixa acena, aponta pro telefone. Josias vem, descansa a bandeja no balcão, seca as mãos na casaca, atende. Sorri. Prazer em falar com o senhor, seu Tadeu. Sentimos sua falta hoje.

A conversa se estica. Seu Nicolau observa, impaciente: bar lotado, um garçom a menos, que palavrório sem fim é aquele? Batuca o relógio de pulso com o indicador, esbugalha os olhos empapuçados, ergue as palmas pro teto. Josias encolhe os ombros, cobre o bocal do telefone, explica: é seu Tadeu, da mesa sete.

Tadeu já se sente melhor. Desliga a TV. Talvez até durma. A conversa avança. Josias puxa a banqueta com o pé, senta, afrouxa a gravata borboleta, ajeita os cotovelos sobre o balcão, troca o telefone de orelha.

Seu Nicolau se afasta, conformado.

A madrugada amolece.

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Sapucaia

Apressado, cortando caminho pelo gramado, deparo-me com essa árvore de folhas que são flores, ou de flores que são folhas, difícil saber. A folha começa verde, logo se veste de rosa. A flor ensaia ser rosa, muda de ideia, esverdeia-se.

Embasbacado, esqueço ruas, esquinas, buzinas.

É criatura exótica, filha raptada da Mata Atlântica, contou-me um sábio. Lecythis pisonis. Sapucaia, para os agora íntimos.

Folhas floridas, flores folhadas. Majestosa, em eterno dilema: não se sabe folha ou rosa, flor ou verde, árvore ou aquarela.

Depende do ângulo, do olhar, se de bicho, se de gente.

Eu que tão pouco sei de sapucaias. Sempre verde-musgo, monocromático, mergulhado na fotossíntese nossa de cada dia.

 

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Janela

Nove da noite, apartamento sem varanda, décimo oitavo andar. O pai temperando o frango para o dia seguinte, a mãe recolhendo as roupas da máquina de lavar. No sofá da sala, olhos atentos à TV, os três meninos: Lucas, Tiago, Mateus.

Lucas, o mais velho, abandonará logo os estudos, abrirá um bar, com sinuca. Casará três vezes, serão três divórcios, cinco filhas. Endividado, hipertenso, diabético, dominará a arte da anedota. Teatral, as negras olheiras, o gestual preciso, a voz defumada. Os habitués em volta, inebriados.

Tiago, o do meio, fará ciências contábeis. Falará somente quando não houver outro jeito. Será promovido a auditor fiscal. Detectará, em breves instantes, incongruências sutis em vastas, profundas planilhas. Dormirá nada, os olhos auditando o teto, os pés irrequietos sob o lençol. Vagará na madrugada por ruas distantes: vestido longo, batom, peruca.

Mateus, o caçula, mostrará cedo seu talento raro para o combate. Acumulará vitórias acachapantes no octógono. Terá fama, dinheiro, um documentário. O rosto sem marcas, os olhos miúdos, venosos. Será atropelado em sua corrida matinal, motorista qualquer, embriagado. Paraplégico, aplicará um mata-leão em si mesmo, a corda de pular libertadora.

O pai coloca o frango temperado no refrigerador. A mãe termina de estender a roupa. Acomodam-se no sofá entre os meninos. Lucas, pai, Tiago, mãe, Mateus. Afagos. As luzes da TV bruxuleando pela janela. Décimo oitavo andar.

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Ascensão

Não quer me dizer seu nome, pelo menos? Não? Não mesmo? Tudo bem. Vamos lá. Onde estávamos? Ah, não importa. Agora eu grudo no espelho feito lagartixa, você vem por trás. Isso, assim.

Nunca imaginei fazer isso num elevador. Cubículo sem nenhum conforto. Mas não é que funciona? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, disse o poeta. Isso, agora eu deito, os pés na parede, você senta. Cavalinho, isso.

Como? Plantando bananeira? Não sei se consigo. Vou ficar apontando pra baixo, vai ser estranho. Tudo bem, o céu é o limite! Nossa, funciona. Delícia. Só anda logo, não vou aguentar muito.

Agora você se pendura no teto. Isso, é só empurrar o acrílico pro lado. Assim. Você não acha estranho que a porta do elevador não tenha aberto nenhuma vez? Estamos subindo ou descendo? O quê, parados? Nunca. Elevador parado é antielevador, que muito brochante isso. Aperta um botão qualquer aí, vai. Pra subir, de preferência.

Como não pode apertar? Por quê? Estamos parados há quanto tempo? Dois meses?!? Sério? Não estou nem acreditando nisso. Guinness Book, lá vamos nós! Ai que emoção. Agora sou eu que me penduro, sai daí, isso.

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Sísifo

Manhã ensolarada no parque. Jovens estirados na grama, cachorros inquietos, atletas circulares. Caminho em direção aos aparelhos de ginástica.

Posiciono-me. Espio o céu. Respiro fundo, seguro firme a barra, ergo o corpo. Inspiro, expiro. Vinte. Solto. Admiro meus braços dilatados. Mais vinte. Fartos gomos que se remexem sob minha pele fresca. Mais vinte.

A exaustão chega, volto pra casa.

Entardeço à tela do computador. Meus braços agora murchos, esquálidos. Cruzo-os sobre o peito, apalpo minhas carnes moles, os ossos pontudos. Adormeço no sofá. Sonho penhascos.

Manhã nublada no parque. Volto aos aparelhos. Posiciono-me. Respiro fundo. Vinte. Solto. Mais vinte. Afago meus braços intumescidos. Mais vinte. As grossas veias saltando sob a pele tensa. Mais vinte.

Chega a náusea. Aperto os olhos. Vultos. Arrasto-me para casa.

Anoiteço sobre o teclado. Esfrego meus olhos de areia. Vejo braços finos, desidratados. Meus ossos quebradiços. Adormeço na cadeira. Sonho deslizamentos.

Amanhece. Sol intenso. No parque, casais sentados nos bancos, pipoca, tartarugas inertes sobre pedras, crianças pulando na areia. Na cama, eu. Meus longos braços de chumbo. Posiciono-me. Respiro fundo. Zero. Solto-me. Aguardo a chegada da pedra.

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Zafu

Nosso Mestre desapareceu. Seu zafu jaz vago à nossa frente. Perplexos, meditamos hipóteses.

O Mestre deve ter se desmaterializado. Habita agora cada átomo desta sala. Alguns entre nós conseguem sentir sua inspiradora presença ao tocarem o chão.

O Mestre deve ter pressentido o fim, se recolhido à natureza para a derradeira, solitária meditação. Orvalho, brisa, aurora. Seu corpo evaporando lentamente sobre a relva.

A ausência do Mestre paira densa em nosso ar. Gira, gira, exibe suas múltiplas facetas.

Meditamos angústias.

Ontem tive uma visão do Mestre. Ele estava sem o samuê: vestia camiseta, jeans, tênis. Vagava pela rua de pedestres apressados, ambulantes, gritos, buzinas. Fumava, alheio. O cabelo crescido. Seus olhos úmidos, avermelhados. Vazios de todos nós.

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Cadeado

O barracão nos fundos do pátio. Fosse àquele tempo, a pequena chave surrupiada da gaveta do Pai bastaria. Agora o cadeado requer pé de cabra, algum suor. Óxido ocre-verde que se esfarela.

A velha porta de madeira, conhecida sentinela. Queremos abri-la? Lá dentro em tudo o Pai que falta, a poeira densa, as teias da ausência. Palimpsesto.

Não é lugar de criança, dizia.

A mesa de cedro estará lá. Formão, martelo, grosa, dispostos à Sua meticulosa maneira. Sobre ela, a obra inacabada: andrógino torso, os braços decepados. Nosso pasmo infantil.

A chave proibida ardendo oculta nas nossas mãos de brincadeiras. O cadeado que abria, fácil. E se Ele chegasse do escritório mais cedo?

Por certo sabia. Nosso cheiro ainda fresco no ar amadeirado do barracão, as pequenas pegadas na serragem do chão. Só não queria estar presente enquanto descobríamos seus outros filhos, talhados à sua imagem.