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Cavalo branco

Só montava nele o Valdo, ginete desde menino. Árabe branco, inteiro, de filme. As ventas escuras infladas, bufando. Olhos esbugalhados, num espanto do mundo. Os cascos sovando brutos o barro do curral.

Ela menina que ninguém notou crescer na fazenda, onze anos talvez, franzina de quebrar. Filha de quem mesmo? Medrosa de qualquer coisa que se mexesse, só do árabe que não. Logo dele, aquelas narinas de dragão, os cascos fervendo. Ela imaginava fazia dias já.  Espiava o árabe, piscava, piscava, piscava, o coração tamborilando. Esperou feito adulta a combinação justa: o Valdo sumido na plantação, o árabe encostado na cerca. Esgueirou-se, escalou as ripas do cercado, deslizou feito sombra para o alvo lombo. Agarrou firme a crina espessa. Deitou a bochecha no pelo liso, o couro morno. Cerrou os olhos, aspirou fundo o cheiro acre do bicho. Ficaria ali uma vida inteira, curta que fosse.

Uma única corcoveada seria o fim, mas o árabe apenas trotou, generoso. Tremelicou indolente o costado, balançou a cabeça, bufou leve. Ela já empertigada, o olhar lá no fim do campo, as mãos engalfinhadas na crina. Seu momento que chega. Ele aumenta o trote, sem pressa. Então toma gosto, dispara. Ela agora sobre seu sonho branco desembestado, o campo em terremoto, seu fino corpo escorregando sem volta, as mãos tenras crispadas na crina.

No baque do chão, algum osso sempre se parte. Um cavalo árabe que some no horizonte. O corpo que fica.

Emborcada no pasto, inerte, gosto de capim na boca, ela pisca. A dor de terra firme paraliza. O coração ciente, compassando. Respiração que volta. O sorriso que tenta sair. Entre os dedos da mão, no punho cerrado, os fios arrancados da crina.