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Cheshire

A sala sobra para o número de pessoas, ambiente climatizado. Alguns não apareceram, compromissos muitos, reais e imaginários. Quarentas, cinquentas, alguns sessentas. Raul, o anfitrião, zelou pelas amenidades: pães franceses, queijos da serra da Canastra, embutidos espanhóis. Vinhos portugueses, cervejas belgas, temperaturas certas para cada caso.

As vozes moderadas dissolvem-se no flamenco ao fundo. Conversas circulares, risadas de coquetel. Os fumantes na varanda, desclimatizados. Falam um pouco mais alto, parece. Riem um pouco mais alto também, parece.

Sandra, a anfitriã, olha o celular, pede licença, dirige-se à parte íntima da casa. Tranca-se no banheiro da suíte. Levanta a saia, senta no vaso. Retira o pequeno frasco da gaveta, derrama cuidadosa o pó branco nas costas da mão, inspira. Mais uma vez. Seu coração acelera. As pupilas estalam. Navega o celular, escolhe a trilha sonora: Moby. Aperta o botão do volume até a bolinha bater no fim da linha.

I’m gonna find my baby, ooh, before that sun goes down.

Se toca, redemoinho que sobe. Sorri, até o fim da boca. Gata de Cheshire.