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Chuva

Ana vê as nuvens, não dá bola. Deitada de bruços sobre a grama do parque, lê Quintana. Os pés acompanham a batuta dos versos. Esquece até de piscar os olhos.

O primeiro pingo cai-lhe bem na ponta do ombro tão magro. Ana nota, nada faz. A gota fica ali, rotunda, equilibrada sobre a magnética pele negra. Recusa-se a escorrer daquele cume: a vista de Quintana é privilegiada demais.

Vêm as outras gotas. Infiltram-se no denso cabelo de Ana, esborracham-se sobre sua camiseta, seus jeans. Dissolvem-se, eternas mártires do mundo mineral.

Ana no meio do poema, pétrea, não recua. Novas gotas bombardeiam as páginas, insensíveis. Borram as letras, erguem bolhas no papel.

Quintana desfigurado em indiscerníveis tons de cinza, ilegível.

Ana se vira, deita de barriga pra cima, abraça o livro sobre o peito. A chuva vira tormenta. Tudo agora é água.

Olhos fechados, abre um sorriso radiante, impermeável.