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Colesterol

Não sei, nunca medi. Então não tenho, tecnicamente falando, diz. O copo de cerveja na mão. O olhar grave sobre a barba grisalha. As bochechas vermelhas. Estamos bebendo desde o início da tarde. Já é noite.

Você pode ter um câncer, por exemplo, continua. Aparece, você percebe. Morre, ou sobrevive. Mas colesterol, não, é uma ficção da ciência, uma das. Que nem glicose, triglicerídeos, essas porras todas que as pessoas medem. Porque os médicos pedem. E os laboratórios festejam. E os planos de saúde engordam. Parasitas.

Emborca o que restava no copo. Abro mais uma, sirvo. Colarinho perfeito.

Comigo não. Gente normal enfarta, fica brocha etc. Assim. Natural. Real. Gosto de alface, brócolis, essas coisas, mas se eu não gostasse, não comia, nem fodendo.  Nunca achei que viver muito fosse uma boa ideia, sabe? É cansativo, e egoísta. A gente tem que dar espaço pra meninada brincar de ser. A fila anda.