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Duelo

Passadas tantas noites em claro, tantos dias no escuro, o cérebro de Miguel, fervilhando em sinapses delirantes, aos poucos se derrete, sorvete ao sol. Envolto nas cobertas, prossegue, romances em punho, lidos às pilhas, um após o outro: Julia, Sabrina, Bianca, Harlequin Paixão. Acossam-lhe sudoreses, taquicardias. Contorce-se em devaneios.

Enfim livre do juízo, veste sua melhor camisa, passa gel no cabelo, apara a barba. Sai à procura de sua amada. Aborda as desavisadas vítimas nas calçadas, praças, mercados, cafés. Olhar em rebuliço, monologa sobre os mistérios insondáveis da paixão, seduções avassaladoras, tremores incontroláveis de desejo, amores proibidos, turbilhões de sentimentos inconfessáveis. Felicidades eternas.

Elas se afastam, rindo, temerosas.

Oh paixões não correspondidas, oh atrozes solidões!

Miguel segue, resoluto. Entra a esmo no Bar do Madruga, depara-se com Dulce. Final de tarde, ela beberica a cerveja, masca sem pressa a porção de fritas. Ouve-lhe pacientemente a ladainha. 

— Você mora aqui perto? — ela pergunta, o olhar ainda nas fritas.

Miguel cala. Pisca. Responde que sim.

— Então vamos, agora — ela diz.

Paga a conta, recarrega o batom.

Ao entrarem, Miguel até tenta se ajoelhar, proferir juras de amor eterno. Não há tempo. Empurrado para a cama, despido aos puxões, é mordido, babado, sugado. Pilado sem misericórdia, aos gritos. Miguel esvai-se, atômico. Como nunca dantes.

Olhos a meio mastro, ele monologa estirado sobre a cama: almas gêmeas, destinos inescapáveis, uniões indissolúveis, até a morte. Dulce recolhe a bolsa do chão da sala. Ajeita o vestido, o cabelo. Refaz o batom. Espia Miguel, seus murmúrios. Ri. Sai. Leva a chave.