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Dulcineia

Bastaram uns poucos meses morando com Dom Quixote para Dulcineia se dar conta do tamanho do equívoco. Deixara-se dopar por aquele par de olhos turvos, que a enxergam sempre divinamente bela. Não quer, nem jamais quis, beleza alguma. Deseja é plantar, colher, vender seus produtos orgânicos na feira ecológica de La Mancha. Seu corpo sempre foi instrumento, nunca fim.

Dom Quixote não entende, louva sem trégua seus atributos de musa, dedica-lhe poemas apaixonados — repletos de constrangedores clichês — todo santo dia. Declamados aos brados no quarto, na cozinha. Uma tortura. E Dulcineia ainda tem que conviver com aquela armadura medonha, sempre atirada pela casa.

Paz só tem mesmo quando ele sai campo afora com Sancho para as tais aventuras. Somem por dias a fio, uma bênção! Pela janela da sala, Dulcineia os observava encolherem no horizonte. Ele alto, magro como um poste. Sancho atarracado, as redondezas saltando das calças justas. Conversas gesticuladas, infinitas. Aqueles dois sim, talhados um para o outro.