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Gato, pombo, gaivota

Limo, rachaduras, óxidos. Calhas empenadas. Istambul deixa seus prédios envelhecerem. O gato caminha, veludo, pelo telhado. Espreita o pombo alheio.

Chegam do Bósforo as alvas gaivotas, suas estridências, peitos estufados. Reviram os ares com asas espalhafatosas, despertam vivos, mortos.

O pombo voa. O gato fica. Olha o telhado vazio, assombrado de gritos. Ah, o que ele não daria por uma gaivota! Branca, carnuda, alada. 

O gato sonha, felino. Salta como nunca, alcança a gaivota em pleno voo. Firma suas garras no corpo roliço. Entrelaçados, deixam telhados, sobrevoam o Bósforo. Seu focinho de gato aninhado naquele pescoço branco, imordível, para que não acabe.

As gaivotas partem. Permanece o gato, imóvel sobre o telhado, Istambul em volta. Aguarda, em sua eterna paciência de gatos, o novo pombo. Sonha gaivotas.