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Jardim

Décimo quinto andar, varanda vazia. Irineu começa com um vaso de manjericão. Prova folhas. Degusta as delicadas flores. Suspira. Decidido: será um jardim de temperos.

Compra mudas de alecrim, sálvia, tomilho, orégano, pimentas várias, coentro, tudo que encontra. Hortelã. Encanta-se por um pé de funcho. A varanda agora abarrotada, verdeja. Os aromas se entrelaçando, embriagantes. Irineu rega, masca folhas, morde ramos. Temperado por dentro, por fora.

Os pulgões não tardam. Tampouco os fungos. Chegam as formigas alpinistas. Irineu compra o veneno mais forte da loja, borrifa tudo, as mãos trêmulas, os olhos esbugalhados. Mastiga folhas aos punhados, engole pimentas inteiras. As lágrimas viscosas, avermelhadas. Adoece. Uma semana se revirando na cama, a baba grossa, verde. Alucinações.

Décimo quinto andar. Sol, chuva, sol, chuva.

Irineu melhora. Consegue enfim se arrastar até a varanda. O choque: as pragas findas, mas o jardim mutilado. Entre a legião de cadáveres desidratados, as poucas sobreviventes, suas trágicas exuberâncias. Irineu murcha. Pasma. As mãos espalmadas sobre os ralos cabelos. O céu límpido, indiferente.

A noite pousa. Nos arranha-céus vizinhos, janelas insones.

O sol se esgueira pela basculante. Sentado à mesa da cozinha, Irineu come o pão do novo dia. A mão mecânica à boca, a mastigação bovina. Na varanda, pássaros pousam no parapeito. Espiam. Saltitam. Chilreiam. Recolhem gravetos para o novo ninho.