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Jurubeba

A mãe chegou com ele dentro de uma caixa de sapato furada dos lados, para entrar o ar. Colocou no chão do corredor. Pediu que a gente adivinhasse o que era. Joana e eu, acocorados, olhando a caixa, congelados de emoção. Nem deu tempo de tentar, ele logo piou, se entregando. Um pintinho! O pai nos olhando lá da porta do quarto, sério. Um pintinho! E cinza, nunca tinha visto um assim. Meu coração palpitava. Joana dava pulinhos de satisfação, as marias-chiquinhas balançando pra cima e pra baixo. A mãe abriu a caixa, tirou ele com todo o cuidado, colocou no chão. O pinto ficou parado, meio grogue. Abria e fechava os olhos, bambo. O pai entrou para o quarto, fechou a porta. Tá tonto da viagem, tadinho, a mãe disse. Vamos levar ele pra varanda? Levamos.

Nos primeiros dias a gente ainda ouvia o pai resmungar sobre termos uma galinha morando na varanda do apartamento, que ideia maluca da tua mãe, onde já se viu, mas logo ele também se apegou ao bichinho, se aquietou, voltou a soltar o sorrisão. O pai era assim, imenso, peludo, cara de brabo, mas molinho molinho por dentro. A mãe é que decidia tudo, a gente já sabia.

Batizamos o pinto de Jurubeba, ideia da Joana. Ajeitamos tudo bem direitinho na varanda: comedouro com milho quebrado, pote d’água, casinha, ninho. Joana, sempre impaciente, só falava no tal do ovo. Que a Jurubeba ia botar ovo todo dia, que a gente ia comer ovo no café da manhã. Dava pulinhos de emoção. Eu só queria ficar olhando a Jurubeba na varanda. Até hoje sou assim. Fico admirando. Matutando. Esqueço de tudo.

Só eu notei que a Jurubeba, que de tão mimada estava crescendo feito grama quando chove, tinha ganhado uns ares diferentes. O peito foi alargando, estufando a linda plumagem carijó. A crista tinha encorpado. O cocô estava maior. Caminhava menos. Ficava parada, me encarando.

Então aconteceu. Eram umas seis da manhã, acordamos com o canto. A Joana saiu correndo da cama. Gritava ovo! ovo! ovo! Corri também. Quando chegamos à varanda, Jurubeba estava plantada em cima da casinha. Serena, ereta. Olhava o céu. Logo chegaram a mãe, o pai, aos bocejos. Crescida a plateia, Jurubeba se empertigou ainda mais. Ajeitou as asas. Soltou a voz, com toda a vontade. Bela. Rouca. Máscula. Sem essa de ovo.