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Mandamento

Templo lotado, porta lateral entreaberta. O vira-lata ossudo hesita, enfia a cabeça, espia. Cruza a porta. Ladeia delicado as fileiras de fiéis. Olhar pio, suplica.

A menina percebe, puxa a barra da camisa do pai, aponta. Olha lá, tá com fome. O pai atento às palavras do pastor, repousa a mão sobre os cabelos escorridos da filha, afaga-os. Leva o indicador à boca.

Cale-se.

Ela franze a testa, espreme a pequena boca em angélico bico. Cruza os braços. Fustiga o pastor com seu olhar mais duro.

Vozes ecoam no templo. O pai ergue as mãos ao teto, cerra os olhos, murmura. A menina se esgueira, escapa trotando até o cachorro. Ele abaixa as orelhas, se deita, balança o rabo.

Afago. Afago. Afago. Cão feliz. Menina feliz.

Espia o pai. Ainda mãos erguidas, olhos fechados, agora fala alto, queixo pro teto, a barba grossa. O dinheiro do lanche no bolso do pai. O cão, a fome sagrada, os olhos úmidos de bicho bom. O rabo que balança, a língua caída pro lado. A pequena mão que afaga, que vai entrar e sair daquele bolso em um piscar de olhos.