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Mãos

Ele aguarda. Marcaram às doze no restaurante de praxe, ela chega doze e quinze, beijo breve na boca, senta-se, ajeita-se na cadeira, a mão direita acomodando os cabelos atrás das orelhas, a esquerda oferecida à dele sobre a mesa, palma pra cima. Ele repousa a mão sobre a dela.

Doze anos daquele gesto: ela oferece a palma esquerda, ele a cobre com a mão direita, ela aperta, leve, apenas mais que um toque. Hoje não: a mão dela jaz inerte sobre a mesa, a dele por cima, náufraga.

Então ele soube.

Aperta. No rosto dela, o alarme confuso daquela pressão inédita, a mão recolhida em reflexo, o sorriso sem alegria. Ela chama o garçom, pedem o de praxe. Alimentam-se, trocam cotidianidades, inofensivos. Pagam a conta. Combinam o horário da volta para casa.

A larga avenida, três pistas de cada lado. Ele dirige em silêncio, as mãos firmes no volante, repassa o trajeto, doze anos, quando? Ela observa carros pela janela, cabeça escorada no vidro, as mãos pousadas no colo, entrelaçadas, a esquerda firme sobre a direita.