Categorias
Minicontos

Marulho

A ideia foi dela. Hesitei: Brasil não tem fim, estrada bruta, buraqueira. Numa Kombi? É dura de guia, barulhenta. Sonho não tem adio, vida passa assim, num piscar, ela disse. Trinquei mandíbula, revirei os olhos. Cabeça fervendo. Vambora então, cedi. Ela feliz que brilhava, catou logo uma Kombi toda feita já, cama, trempe.

Norte? Ela pergunta. Isso, Norte. Amanhã, bem cedo, digo.

Banho em posto de gasolina, cozinhando na beira da estrada. Rodamos. Verde pra onde se olhe. Duzentos e vinte milhões de criaturas, cadê? Só vejo mato, boi, brinco. Ela firme no volante. Sorriso dela espalha por tudo, cansa nunca. 

Dormindo onde calha, que Deus protege quem vaga. Às vezes discutimos, fecho a cara. Ela cantarola, cada qual seu jeito de lidar. Não demora a conversa volta, mansa. Kombi não tem silêncio, não cabe.

Três meses de estrada já. Lua quase cheia. Estacionamento à beira da praia, marulho. Deitados, ela ressona, acabada do dia. Eu de olho estalado, o amanhã na cachola. Estrada sem fim? Remexo, coço. Porque na Kombi se quiser não acaba. É pegar a próxima saída, ver onde dá. Parar quando tem cidade, caminhar de mão dada na praça, tirar foto, comer pastel. 

Ela dorme. Reviro. Quando o novo dia brotar, acabou. É rumo de casa, decisão. Plantar raiz. 

Olho enfim pesa. Apago. 

Marulho. Sol que chega, cuidadoso.

Quatro meses de estrada já. Ideia dela.