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Máscaras

No sonho, ao final do plantão, quando Mateus tirou a máscara, seu nariz havia sumido. A boca também. Manteve a calma. Pudera, ponderou, passei a noite inteira sem respirar direito, correndo de um leito para o outro. O que a gente não usa, atrofia, depois some. Supôs o mesmo para a boca: não teve tempo de comer nada todo o plantão. Só podia dar naquilo.

Mas logo inquietou-lhe o futuro. Sem nariz, sem perfume? Luana adorava, tinha uma dezena deles, pedia sempre que tentasse adivinhar qual era. Nunca acertava, mas era tão bom… E tinha tanto prazer em comer sem freios depois de um plantão, enterrar as privações numa pizza tamanho GG, numa macarronada fumegante. Ah, o clássico bife à parmegiana do bar do Manoel… Sem boca, como faria?

Acorda, sobressaltado. Leva a mão ao rosto, apalpa. Plástico. Tubo. O enfermeiro mascarado pedindo que se acalme, que não toque o respirador.