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Omnibus

Rui sozinho na parada. Conta o tempo, reconta. Coça o nariz. Examina o chão. Ergue os olhos. A rua longa, sinuosa. Carros e motos serpenteiam, pra cima, pra baixo.

Nada do ônibus. Rui inspeciona as unhas, tamborila o jeans. Dois passos pra esquerda, um pra direita. Para. Olha. Coça o nariz.

Uma senhora chega à parada. Sorri, cumprimenta. O cabelo em coque. Vestido liso, verde, longo, a bolsa de couro firme debaixo do braço. O nome, Madalena, ela não chega a mencionar.

Enfim, glória ao Altíssimo, o ônibus nascendo lá no topo da curva. Descendo, decidido. Rui estica o braço. Madalena se apruma.

O grito do freio é de metal velho, abandonado. Pneus gastos, cansados, ônibus rodopiando. Rui abraça Madalena. Heroico? Carente? Jamais saberemos. Unidos pelo acaso, pelo descaso, fazem juntos a travessia para o reino das estatísticas.