Categorias
Narrativas

Cão de guarda

Eu me divertindo no bar do Elias quando você chega, língua de fora, olhar escorrido. Focinhada sutil na minha saia. Sacode o rabo, sedutor.

Lanço o pedaço de linguiça. Nhac, sua bocada justa, irremediável. Nossa primeira comunhão. Você senta, decidido, aguarda a noite passar.

Eu talvez embriagada, dirigindo, você instalado no banco do carona, comedido. As luzes da cidade passando pela janela. Cão da ribalta.

No apartamento, mostro seus novos aposentos. Você grunhe, feliz. Late. Deita, a cabeça entre as patas, o rabo espanando o chão.

Por que esses olhos, imagem e semelhança? Minha mão se aproxima, cautelosa. Afago a suspeita que não me abandona: que você foi homem, morto a espada, reencarnado até me encontrar assim.

Categorias
Narrativas

Pandemia

As pessoas não sabem se preparar. Eu sei. Assim que vi a primeira notícia de canto de página sobre o tal novo vírus chinês, comprei suprimentos não perecíveis para doze meses de isolamento. Tenho uma tabela Excel com meu consumo diário nos últimos dez anos, por suprimento, preço, peso, volume, tudo. Cruzei informações, dimensionei custos, medi o espaço necessário de estocagem. As pessoas não sabem fazer estimativas precisas. Eu sei.

Os vizinhos tentaram disfarçar o estranhamento enquanto eu transportava as intermináveis caixas e sacolas pelo elevador. Digo “vizinhos” porque não sei o nome de nenhum deles. E não me interessa. Agora, plenamente isolado, nem os vejo mais. Melhor.

O vírus é magnífico, obra-prima da natureza. Esfera coroada, minúsculo planeta acinzentado donde brotam buquês encarnados, fatais. Colei a foto ampliada na parede da sala. Me exercito olhando pra ela, me alimento olhando pra ela. Manter o foco, sempre.

Temo somente pelas frestas. Janelas, portas, sempre imperfeitas. Toda manhã faço uma varredura. Tenho uma lupa enorme, herança, meu pai míope. Inspeciono, rastejo, a lupa numa mão, a seringa com álcool na outra. No dia em que encontrá-lo, sei que vou hesitar. É de beleza ímpar, sublime. Mas não vou falhar. As pessoas não sabem agir nessas horas críticas. Eu sei.

Categorias
Narrativas

Alma penada

Acocorado sobre o túmulo, ele matuta. Muitas noites assim, baforando pra dentro. Elisa já se acostumou, mas os filhos estranham. Têm medo de cemitério à noite, acham que é coisa de maluco. Ele rebate: se alma penada existisse, penaria logo no cemitério? Mais fácil encontrar no shopping.

Traga, matuta, acaricia a lápide. Cada noite, um túmulo diferente. A fumaça subindo pro preto, nenhuma estrela. Escolhe de instinto: nome, datas.

Valéria Sampaio, 1972-2001. Tão jovem. Doença? tiro?

Fecha os olhos, imagina-a baixa, cabelos curtos, escuros, encaracolados. Jeans, blusa branca. Sandálias. Olhar desconfiado. Bochechuda. Vem apressada, entra na farmácia. Para em frente à prateleira de analgésicos. Ele faz um comentário sobre os riscos do paracetamol. Assim, besta, só pra iniciar a prosa. Ela se vira, franze a testa. Terminam no café ao lado, rindo, comendo pão de queijo.

Elisa não gosta que ele invente essas histórias. Perturba as almas, diz. A gente reencarna, caminha tudo de novo, não carece ficar atiçando.

Ele traga, matuta, sente a pedra. Analgésico.

Categorias
Narrativas

Cheshire

A sala sobra para o número de pessoas, ambiente climatizado. Alguns não apareceram, compromissos muitos, reais e imaginários. Quarentas, cinquentas, alguns sessentas. Raul, o anfitrião, zelou pelas amenidades: pães franceses, queijos da serra da Canastra, embutidos espanhóis. Vinhos portugueses, cervejas belgas, temperaturas certas para cada caso.

As vozes moderadas dissolvem-se no flamenco ao fundo. Conversas circulares, risadas de coquetel. Os fumantes na varanda, desclimatizados. Falam um pouco mais alto, parece. Riem um pouco mais alto também, parece.

Sandra, a anfitriã, olha o celular, pede licença, dirige-se à parte íntima da casa. Tranca-se no banheiro da suíte. Levanta a saia, senta no vaso. Retira o pequeno frasco da gaveta, derrama cuidadosa o pó branco nas costas da mão, inspira. Mais uma vez. Seu coração acelera. As pupilas estalam. Navega o celular, escolhe a trilha sonora: Moby. Aperta o botão do volume até a bolinha bater no fim da linha.

I’m gonna find my baby, ooh, before that sun goes down.

Se toca, redemoinho que sobe. Sorri, até o fim da boca. Gata de Cheshire.

Categorias
Narrativas

Vaga-lume

O enorme aquário da sala abandonado faz muito, ar onde era água. Restam as pedrinhas no fundo seco, o mergulhador que borbulhava, desbotado. A caravela de porcelana naufragada.

Noite de lua nova, sala escura. João afundado no sofá, idoso em tudo, dormita. Luzia assiste à TV, olhos já pela metade, mas notam o pequeno flash de luz esverdeada. Pousado na cabeça do mergulhador, o vaga-lume pisca. Banha a caravela de esmeralda. Luzia toca suave o braço de João: olha homem, lá no aquário.

Dois pares de olhos que piscam do lado de cá do vidro. Seus rostos antigos, escavados de saudades. Acendem, apagam, acendem, apagam. Luzia, João, João, Luzia. Lume que vem, lume que vai.

Na noite seguinte já são centenas deles. Bailam dentro do aquário, sinfônicos. Paredes, estantes, tapetes, tudo pisca. Pulsa.

A TV desligada. João e Luzia entrelaçados no sofá. Embriagados de luz e brevidade.

Categorias
Narrativas

Elevador

A menina estica o braço, alcança a maçaneta, gira. A porta cede, ela ganha o corredor. As hawaianas floridas plec-plec-plec no piso. Espera, filha, tenho que chamar o elevador. O pai preparando a mochila na sala. A mãe no quarto ainda, ocupada com o irmãozinho bebê, que chora, inconsolável.

Plantada em frente à porta da máquina encantada que sobe e desce, ela reflete. Afasta os cabelos, faz um binóculo com as mãos diminutas, espia pelo vidro. Escuridão, só. Franze a testa, aperta os lábios. Suspira.

Elevador! Elevador! grita. Elevador! Nada. Ouve o riso grave do pai. Quer descer correndo pelas escadas, mas a mãe nunca deixa. Espera, filha, o pai já vai aí chamar o elevador. O bebê chora.

Elevador! Elevador! ela grita. Mãos na cintura. E o mundo que nunca obedece.

Categorias
Narrativas

Tesourinha [⌘]

Minha ideia de fuga era singela: entrar na tesourinha, permanecer, para sempre. Sair da pista à direita, passar por baixo do viaduto, subir à direita, voltar à pista, descer à direita novamente, passar por baixo do viaduto, subir à direita, voltar à pista, descer à direita. Assim, uróboro. Eterno.

As dificuldades logo se apresentaram. Minha gasolina acabaria em algum momento. Mesmo que eu tivesse enchido o porta-malas e os bancos vazios com galões, só teria adiado o fim. E eu teria que parar o carro no meio da tesourinha pra usar os galões. Não se interrompe uma fuga: ouça Bach.

Outra questão crítica era meu sistema gastroenergético. Para continuar dirigindo, eu teria que consumir água, alimentos. Problemas: 1) uma tesourinha é uma sequência vertiginosa de curvas em espelho, beber e comer causaria acidente elíptico, fatal; 2) meus excrementos – acabaria submerso neles.

Cognitivamente derrotado, emocionalmente exausto, tive que abandonar a tesourinha, voltar pra casa. Ter a tal conversa com a Suzana.

Categorias
Narrativas

Bolsa

Domingo, metrô esvaziado. Minha estação é sempre a próxima. Saio do vagão, entro no seguinte, a caixa de doces na mão. Compra pra me ajudar! grito. A venda é rara. E pelo doce, não pela ajuda.

Ela está sentada bem ao lado da porta, cochila. Velha já, cabelo ruivo tingido, óculos verdes, desses de grife. Colarzão, vestido floreado. Toda bacana. A bolsa, enorme, solta no colo.

Facinho. Na hora de trocar de vagão, levo a bolsa. Quando ela acordar, já era. Carteira, celular, chave do apartamento, do carro, tudo lá. Busco a Nati de carrão na feira, a cara de espanto dela, sorrisão. Rodamos. Fumamos um, depois vamos pro apartamento da velha, comer tudo que tiver na geladeira. E beber vinho, muito. Depois transar na cama grande e macia, o ar-condicionado ligado a mil, até cansar. Fumar mais um depois.

Vai ser assim, bem assim.

Categorias
Narrativas

Lombada

Daqui tudo que vejo é a lombada. Cem Anos de Solidão. Macondo, tapetes voadores. Úrsula, el coronel Aureliano Buendía. Poeira, bananas, gritos de guerra, a chuva pela janela. Quinhentas páginas, trinta linhas por página, quinze mil trilhas percorridas a olho nu.

Minha arrebatada retina, dilata. Abro o livro? Não, novas trilhas, melhor. A lombada, minha biblioteca silente, as vozes. Cubro os ouvidos. Cantarolo.

Gabo delira, insulta repórteres. Cerra enfim os olhos, a cama qualquer. Os lençóis postos pra lavar. Móveis e objetos preservados, por ora.

Livro que se fecha, redemoinho. Já se vão duzentos mil anos de solidão, estima-se.

A lombada, inquieta lápide.

Categorias
Narrativas

Colesterol

Não sei, nunca medi. Então não tenho, tecnicamente falando, diz. O copo de cerveja na mão. O olhar grave sobre a barba grisalha. As bochechas vermelhas. Estamos bebendo desde o início da tarde. Já é noite.

Você pode ter um câncer, por exemplo, continua. Aparece, você percebe. Morre, ou sobrevive. Mas colesterol, não, é uma ficção da ciência, uma das. Que nem glicose, triglicerídeos, essas porras todas que as pessoas medem. Porque os médicos pedem. E os laboratórios festejam. E os planos de saúde engordam. Parasitas.

Emborca o que restava no copo. Abro mais uma, sirvo. Colarinho perfeito.

Comigo não. Gente normal enfarta, fica brocha etc. Assim. Natural. Real. Gosto de alface, brócolis, essas coisas, mas se eu não gostasse, não comia, nem fodendo.  Nunca achei que viver muito fosse uma boa ideia, sabe? É cansativo, e egoísta. A gente tem que dar espaço pra meninada brincar de ser. A fila anda.