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Mãos

Ele aguarda. Marcaram às doze no restaurante de praxe, ela chega doze e quinze, beijo breve na boca, senta-se, ajeita-se na cadeira, a mão direita acomodando os cabelos atrás das orelhas, a esquerda oferecida à dele sobre a mesa, palma pra cima. Ele repousa a mão sobre a dela.

Doze anos daquele gesto: ela oferece a palma esquerda, ele a cobre com a mão direita, ela aperta, leve, apenas mais que um toque. Hoje não: a mão dela jaz inerte sobre a mesa, a dele por cima, náufraga.

Então ele soube.

Aperta. No rosto dela, o alarme confuso daquela pressão inédita, a mão recolhida em reflexo, o sorriso sem alegria. Ela chama o garçom, pedem o de praxe. Alimentam-se, trocam cotidianidades, inofensivos. Pagam a conta. Combinam o horário da volta para casa.

A larga avenida, três pistas de cada lado. Ele dirige em silêncio, as mãos firmes no volante, repassa o trajeto, doze anos, quando? Ela observa carros pela janela, cabeça escorada no vidro, as mãos pousadas no colo, entrelaçadas, a esquerda firme sobre a direita.

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Epidemiazinha qualquer

Apartamentos sobre apartamentos. Mulheres, homens, crianças entre paredes. Amor, vigiar, penar. Gritos. Nenhum cantar.

Lá embaixo, a enfermeira mascarada vai depressa. O entregador sem máscara vai depressa. O homem sem máscara se exercita, devagar. A mulher mascarada passeia com o cachorro, devagar. O porteiro perambula, devagar, a máscara pendurada no pescoço.

Devagar… as janelas olham para dentro, assombradas.

Eta vida comprida, meu Deus.

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Lift facial

Observa-se ao espelho. Seu rosto na plena lisura dos vinte, impecável topografia. Toca a testa, sente o nariz, as frescas bochechas. Cobre a boca tenra com a mão. Cerra os olhos.

É chegada a hora.

Começa pela barba. Será espessa, regular. Os fios grisalhos entremeados aos negros. Dos cabelos deixa apenas as raízes mais profundas. Alvos, finíssimos, desgrelháveis à mínima brisa. Unta, penteia-os para trás, elmo prateado.

Talha olhos venosos, o vermelho túmido brotando sob o branco pasmo. Pardos na íris, abismos nas pupilas. Sulca a testa, os cantos. Escava valos na pele árida, rumo à boca, pálida, abre caminho para as águas salobras.

Admira-se ao espelho.

Pronto. Que venham.

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Azul de mar

Deslizo pelo paraíso, modorra azul. As nuvens lá embaixo, acolchoadas. Serviço de bordo concluído, tripulação recolhida. Sozinho na fileira de três assentos, bocejo.

Do nada, o solavanco. Meu resto de vinho tinto se espalha no ar. Bato a cabeça no teto. Caio de costela sobre o braço do assento. Dor. Gritos ao redor.

Segundo solavanco, mais violento. Arremessado ao corredor, fico preso entre as fileiras. Sinto sangue na boca, os braços dormentes. Meu coração se debatendo na traqueia.

Terceiro solavanco. Explosão. Cheiro de fumaça. Pensamentos catastróficos. Tripulante correndo por cima de mim.

Escorrego paraíso abaixo. Atravesso nuvens. Entalado entre as fileiras, eu, comigo mesmo, nenhuma companhia, nenhuma distração. Burburinho sumindo ao fundo, estranha paz se assentando em mim. Pela escotilha, vejo o céu, azul de mar. Lindo de morrer.

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Perfume

Meus quinze anos são ridículos. Ela fez quarenta, contou pra turma. Cantamos parabéns. Dezesseis anos de magistério, acrescentou, orgulhosa. Boca, voz, veludo. Já dava aula de matemática antes d’eu nascer.

Silêncio na sala, fazemos os exercícios. Ela ondula entre as carteiras, magnífica. Essas equações dos infernos não têm resultado, nem fim! Saio do eixo, remexo as pernas. Ela percebe, se aproxima, toca meu ombro, oferece ajuda. Minha situação só piora.

Nem em casa ela me dá sossego. Usa esse perfume morno que gruda em mim. Tomo banho, esfrego, não sai.

Meu pai tem mania de santo. Quadros, estatuetas, tem pela casa toda. Encaro Santo Antônio no corredor. Pergunto por que ele deixou eu nascer tão tarde, por que arruinou minha vida amorosa pra sempre.

Santo Antônio me encara, oco de respostas.

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Banho de sol

Tu vem hoje ver esse teu velho pai, minha filha? Precisamos conversar.

Como tu bem sabe, o Mauro tem bom coração, mas vive nas nuvens. Coisas aleatórias entram na cabeça dele, empurram as que estão acontecendo pra fora. Me colocou pra tomar sol e esqueceu da vida. Quarei muito mais tempo do que podia, fiquei tonto, embaralhado. Tua mãe apareceu, sentada no muro, sacudindo as pernas feito menina, sorrindo pra mim. Ela nunca fez nada do tipo quando era viva, tu bem sabe. Em seguida ficou em pé, abriu os braços, deu um salto mortal – saia esvoaçando e tudo mais –, pousou ereta sobre o muro, impecável. Ficou parada, me observando, aqueles olhos serenos dela. Me chamando pra subir.

Gritei. O Mauro veio correndo, esbaforido.

Tu vem hoje, minha filha? Precisamos muito conversar. E traga uma escada, por favor.

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Cão de guarda

Eu me divertindo no bar do Elias quando você chega, língua de fora, olhar escorrido. Focinhada sutil na minha saia. Sacode o rabo, sedutor.

Lanço o pedaço de linguiça. Nhac, sua bocada justa, irremediável. Nossa primeira comunhão. Você senta, decidido, aguarda a noite passar.

Eu talvez embriagada, dirigindo, você instalado no banco do carona, comedido. As luzes da cidade passando pela janela. Cão da ribalta.

No apartamento, mostro seus novos aposentos. Você grunhe, feliz. Late. Deita, a cabeça entre as patas, o rabo espanando o chão.

Por que esses olhos, imagem e semelhança? Minha mão se aproxima, cautelosa. Afago a suspeita que não me abandona: que você foi homem, morto a espada, reencarnado até me encontrar assim.

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Pandemia

As pessoas não sabem se preparar. Eu sei. Assim que vi a primeira notícia de canto de página sobre o tal novo vírus chinês, comprei suprimentos não perecíveis para doze meses de isolamento. Tenho uma tabela Excel com meu consumo diário nos últimos dez anos, por suprimento, preço, peso, volume, tudo. Cruzei informações, dimensionei custos, medi o espaço necessário de estocagem. As pessoas não sabem fazer estimativas precisas. Eu sei.

Os vizinhos tentaram disfarçar o estranhamento enquanto eu transportava as intermináveis caixas e sacolas pelo elevador. Digo “vizinhos” porque não sei o nome de nenhum deles. E não me interessa. Agora, plenamente isolado, nem os vejo mais. Melhor.

O vírus é magnífico, obra-prima da natureza. Esfera coroada, minúsculo planeta acinzentado donde brotam buquês encarnados, fatais. Colei a foto ampliada na parede da sala. Me exercito olhando pra ela, me alimento olhando pra ela. Manter o foco, sempre.

Temo somente pelas frestas. Janelas, portas, sempre imperfeitas. Toda manhã faço uma varredura. Tenho uma lupa enorme, herança, meu pai míope. Inspeciono, rastejo, a lupa numa mão, a seringa com álcool na outra. No dia em que encontrá-lo, sei que vou hesitar. É de beleza ímpar, sublime. Mas não vou falhar. As pessoas não sabem agir nessas horas críticas. Eu sei.

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Alma penada

Acocorado sobre o túmulo, ele matuta. Muitas noites assim, baforando pra dentro. Elisa já se acostumou, mas os filhos estranham. Têm medo de cemitério à noite, acham que é coisa de maluco. Ele rebate: se alma penada existisse, penaria logo no cemitério? Mais fácil encontrar no shopping.

Traga, matuta, acaricia a lápide. Cada noite, um túmulo diferente. A fumaça subindo pro preto, nenhuma estrela. Escolhe de instinto: nome, datas.

Valéria Sampaio, 1972-2001. Tão jovem. Doença? tiro?

Fecha os olhos, imagina-a baixa, cabelos curtos, escuros, encaracolados. Jeans, blusa branca. Sandálias. Olhar desconfiado. Bochechuda. Vem apressada, entra na farmácia. Para em frente à prateleira de analgésicos. Ele faz um comentário sobre os riscos do paracetamol. Assim, besta, só pra iniciar a prosa. Ela se vira, franze a testa. Terminam no café ao lado, rindo, comendo pão de queijo.

Elisa não gosta que ele invente essas histórias. Perturba as almas, diz. A gente reencarna, caminha tudo de novo, não carece ficar atiçando.

Ele traga, matuta, sente a pedra. Analgésico.

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Cheshire

A sala sobra para o número de pessoas, ambiente climatizado. Alguns não apareceram, compromissos muitos, reais e imaginários. Quarentas, cinquentas, alguns sessentas. Raul, o anfitrião, zelou pelas amenidades: pães franceses, queijos da serra da Canastra, embutidos espanhóis. Vinhos portugueses, cervejas belgas, temperaturas certas para cada caso.

As vozes moderadas dissolvem-se no flamenco ao fundo. Conversas circulares, risadas de coquetel. Os fumantes na varanda, desclimatizados. Falam um pouco mais alto, parece. Riem um pouco mais alto também, parece.

Sandra, a anfitriã, olha o celular, pede licença, dirige-se à parte íntima da casa. Tranca-se no banheiro da suíte. Levanta a saia, senta no vaso. Retira o pequeno frasco da gaveta, derrama cuidadosa o pó branco nas costas da mão, inspira. Mais uma vez. Seu coração acelera. As pupilas estalam. Navega o celular, escolhe a trilha sonora: Moby. Aperta o botão do volume até a bolinha bater no fim da linha.

I’m gonna find my baby, ooh, before that sun goes down.

Se toca, redemoinho que sobe. Sorri, até o fim da boca. Gata de Cheshire.