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Pandemia

As pessoas não sabem se preparar. Eu sei. Assim que vi a primeira notícia de canto de página sobre o tal novo vírus chinês, comprei suprimentos não perecíveis para doze meses de isolamento. Tenho uma tabela Excel com meu consumo diário nos últimos dez anos, por suprimento, preço, peso, volume, tudo. Cruzei informações, dimensionei custos, medi o espaço necessário de estocagem. As pessoas não sabem fazer estimativas precisas. Eu sei.

Os vizinhos tentaram disfarçar o estranhamento enquanto eu transportava as intermináveis caixas e sacolas pelo elevador. Digo “vizinhos” porque não sei o nome de nenhum deles. E não me interessa. Agora, plenamente isolado, nem os vejo mais. Melhor.

O vírus é magnífico, obra-prima da natureza. Esfera coroada, minúsculo planeta acinzentado donde brotam buquês encarnados, fatais. Colei a foto ampliada na parede da sala. Me exercito olhando pra ela, me alimento olhando pra ela. Manter o foco, sempre.

Temo somente pelas frestas. Janelas, portas, sempre imperfeitas. Toda manhã faço uma varredura. Tenho uma lupa enorme, herança, meu pai míope. Inspeciono, rastejo, a lupa numa mão, a seringa com álcool na outra. No dia em que encontrá-lo, sei que vou hesitar. É de beleza ímpar, sublime. Mas não vou falhar. As pessoas não sabem agir nessas horas críticas. Eu sei.