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Riacho

Ronildo traz sempre com ele o banquinho forrado, caminha até o meio da ponte, senta, puxa um cigarro. Se acha que vai armar chuva, vem de capa, bota. Fica admirando o fiozinho de água do riacho bem lá embaixo. Intercala olhando em volta, espia. É ponte curta, aço grosso, rebite. Penhasco agudo. Queda demorada. Ronildo vem todo domingo, final de tarde. Fica coisa de duas, três horas. Volta pra casa sacolejando o banquinho. Não falha. Nunca. Cinco anos já.

Foi no Seresta, cerveja nem tinha mais de tão tarde, o Nico olhou sério pra ele, disse: acontece quase sempre no domingo, na tardinha. Solidão aguda, desgosto sem cura. Gente bem nova. Dar cabo da vida assim, tão cedo, pode? Remédio forte, ponte, pulso atorado, o que calhar. Tá nas estatísticas. 

Nico sabe das coisas, vive na internet.

Aquela ponte perfeita, Ronildo sabe que um dia vai acontecer, certo como o céu. Gente ali do vilarejo. Filho de algum conhecido. Sobrinho, que tem sempre em quantidade. A neta do Antônio, séria candidata, sempre amuada. Quem vai saber? Daí o plantão, rigoroso. Se não aconteceu ainda é porque enxergam a fumaça do cigarro, ele na vigília, matutando. Almas salvas por um banquinho, uns poucos cigarros. Custa? O povo não entende. Não quer reputação, só que reconhecessem. Que não ficassem zoando, chamando de Ronidoido da Ponte. Todo domingo, cinco anos. Sem falha. Quantas almas já? O riacho lá embaixo, esperando.