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Salto

Perfeitamente ereto sobre a ponta da plataforma, ele abre os braços em cruz. Cerra os olhos, inspira, fundo. Recapitula o salto: dois parafusos, dois carpados, o mergulho final. Não há erro possível.

Lá embaixo, o enxame de rostos indiscerníveis. Profusão de mãos que acenam, apontam. Música. Risos?

Salta.

Executa o primeiro parafuso, preciso, autômato. No segundo, sua pele se desprende, toda. Flutua, fantasmagórica. Os jurados não perdoarão, sabe. Executa o primeiro carpado sem o incômodo invólucro, a leveza inédita. Nasce o segundo, nunca tão perfeito.

Cadente, o vento acariciando a carne exposta, termina à perfeição: cabeça, tronco e membros tocam o asfalto no mesmo milésimo de segundo.