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Sentinela

A noite feita pra dormir, só eu que não sabia, menino bobo. Tá na hora, dizia a mãe, eu querendo mais TV com ela, não podia. Achava ruim, fazia manha na cama, mal sabia o que me esperava, agora esse emprego de porteiro noturno nesse condomínio enorme, só mora aposentado, verdadeiro cemitério depois das dez. Como é que um cristão não vai ter sono? E essa câmera bem em cima de mim, outras tantas em tudo quanto é canto, só no banheiro não tem, acho. Se cochilar, me ferro, a síndica manda embora na hora, não vai nem olhar na minha cara, pode saber. Mulher seca, azeda. Mal sabia eu, menino bobo, mal sabia eu. Tão feliz que eu era com a mãe, não entendia o tamanho da coisa. Não dormir à noite é coisa pra coruja, morcego, não se faz isso com um cristão, não se faz. É que emprego tá difícil, e tem o adicional noturno, a gente se dobra, trai a memória da mãe, toda carinho, aqueles olhos mornos dela, eu todinho dentro deles. Mãe minha, mãe minha, que bruta saudade, pra que ir pro céu tão cedo? Vou ficar maluco aqui nessa guarita, pode saber, miolo vai secar, vou acabar rasgando dinheiro na parada do ônibus. Ontem fiquei imaginando um furgão parado bem aqui na frente, uns caras de fuzil brotando dele, pulando o muro, invadindo as casas, tiros, gritaria. Eu dando entrevista pra TV. Nada. Não passa uma viva alma na frente desse condomínio, só o gato, um só, bicho metódico, toda noite por volta das três. Como é que um cristão não vai desmaiar de sono nessa situação? No outro condomínio, lá do final dessa rua sem fim, tem TV na guarita, eu vi na passagem, bem pequena, mas tem. Síndico de lá tem até coração, aqui só azedume. Aqui nada pode, nem no celular, tenho que ficar no silêncio olhando fixo a rua de pedra, sentinela, torcendo pra passar o gato, o grande acontecimento da minha noite. Essas horas que nunca terminam, meu miolo vai encolher, se acostumar com o olho sempre aberto, ardido, desaprender de dormir. A mãe mexendo no meu cabelo, me contando história, me rendia loguinho. Sono ferrado de menino, sem passado na cabeça, leve que só. Nascido de novo toda manhã. Agora não. Passo a noite de olho vidrado, seco, chego em casa o sol já alto, incomodando, eu zonzo, os passarinhos acordados faz horas, não dão trégua, algazarra de bicho feliz. A cortina do quarto que não fecha direito. Peguei nojo de passarinho. Ódio. Não é justo com um cristão ficar abandonado com os pensamentos por tanto tempo. Não é de Deus. Adicional noturno dos infernos, a gente se vende, tem as contas, dinheiro que sempre falta. Não tem como não pensar besteira, remoer passado, pegar cacoete de coçar o olho. Querer ser menino de novo. O gato. Acabou de passar. Agora é só silêncio, depois o sol.