Categorias
Narrativas

Vaga-lume

O enorme aquário da sala abandonado faz muito, ar onde era água. Restam as pedrinhas no fundo seco, o mergulhador que borbulhava, desbotado. A caravela de porcelana naufragada.

Noite de lua nova, sala escura. João afundado no sofá, idoso em tudo, dormita. Luzia assiste à TV, olhos já pela metade, mas notam o pequeno flash de luz esverdeada. Pousado na cabeça do mergulhador, o vaga-lume pisca. Banha a caravela de esmeralda. Luzia toca suave o braço de João: olha homem, lá no aquário.

Dois pares de olhos que piscam do lado de cá do vidro. Seus rostos antigos, escavados de saudades. Acendem, apagam, acendem, apagam. Luzia, João, João, Luzia. Lume que vem, lume que vai.

Na noite seguinte já são centenas deles. Bailam dentro do aquário, sinfônicos. Paredes, estantes, tapetes, tudo pisca. Pulsa.

A TV desligada. João e Luzia entrelaçados no sofá. Embriagados de luz e brevidade.