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Vigília

O Pai adormecido na poltrona da sala. O cigarro aceso entre os dedos inertes, a fumaça escorrendo pro teto. A cinza longa, recurvada, ponto de queda. Se a bagana cair no tapete, labaredas.

Aproximo-me, passos de gato. Subtraio o cigarro, bato a cinza, enterro a bagana no cinzeiro. O Pai dormindo, fundo. A boca entreaberta. O suave roncar.

Afasto-me.

Quando acordar, nada restará do meu gesto. Pensará que colocou a última bagana da noite no cinzeiro, como sempre fazia. Então não houve o perigo, outros mundos em chamas, melhor assim. Amanhã será apenas mais um dia seu a atravessar sem pressa, a margem de lá sob a névoa, à espera.