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Zafu

Nosso Mestre desapareceu. Seu zafu jaz vago à nossa frente. Perplexos, meditamos hipóteses.

O Mestre deve ter se desmaterializado. Habita agora cada átomo desta sala. Alguns entre nós conseguem sentir sua inspiradora presença ao tocarem o chão.

O Mestre deve ter pressentido o fim, se recolhido à natureza para a derradeira, solitária meditação. Orvalho, brisa, aurora. Seu corpo evaporando lentamente sobre a relva.

A ausência do Mestre paira densa em nosso ar. Gira, gira, exibe suas múltiplas facetas.

Meditamos angústias.

Ontem tive uma visão do Mestre. Ele estava sem o samuê: vestia camiseta, jeans, tênis. Vagava pela rua de pedestres apressados, ambulantes, gritos, buzinas. Fumava, alheio. O cabelo crescido. Seus olhos úmidos, avermelhados. Vazios de todos nós.