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Azul de mar

Deslizo pelo paraíso, modorra azul. As nuvens lá embaixo, acolchoadas. Serviço de bordo concluído, tripulação recolhida. Sozinho na fileira de três assentos, bocejo.

Do nada, o solavanco. Meu resto de vinho tinto se espalha no ar. Bato a cabeça no teto. Caio de costela sobre o braço do assento. Dor. Gritos ao redor.

Segundo solavanco, mais violento. Arremessado ao corredor, fico preso entre as fileiras. Sinto sangue na boca, os braços dormentes. Meu coração se debatendo na traqueia.

Terceiro solavanco. Explosão. Cheiro de fumaça. Pensamentos catastróficos. Tripulante correndo por cima de mim.

Escorrego paraíso abaixo. Atravesso nuvens. Entalado entre as fileiras, eu, comigo mesmo, nenhuma companhia, nenhuma distração. Burburinho sumindo ao fundo, estranha paz se assentando em mim. Pela escotilha, vejo o céu, azul de mar. Lindo de morrer.