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Oferenda

Um pardal morto, cuidadosamente acomodado ao lado da minha cama, me velava. O despertador não tocou, levantei atrasado, esbaforido, quase pisei no cadáver. Zara em cima do roupeiro, me observando. A felina cabeça adernada, a ponta do rabo se retorcendo.

Já sei que é presente. Explicou-me Vanessa, a veterinária, em seu jaleco impecável. Cabelo ruivo, sorrisão espetacular, daqueles de doer os olhos de tanta luz. É uma oferenda, a Zara quer ensinar você a caçar, disse.

Dei sorte, na verdade. Já ganhei morcego, lagartixa, camundongo. Mortos, vivos, em coma induzido. Atrasado, não pude lidar com meu presente na hora, saí correndo de casa, dando nó na gravata. O pardal ficou lá, desafortunado, durinho sobre a gélida lousa. Ao final da tarde, quando retornei, continuava no mesmo lugar. Zara de plantão ao lado dele, caso eu não tivesse entendido o óbvio: que era uma oferenda, a ser aceita, e muito celebrada.

Enrolo o pardal em papel toalha, coloco-o respeitosamente no lixo. Zara me seguindo com seus passos de veludo, miando, aguda. Tento compensá-la com um afago. Peço que me traga a Vanessa da próxima vez — viva, por favor. Zara me ignora, resvala pra cima da estante da sala. Lambe as patas. Me encara, sisuda. Pisca.

Fome, hora de jantar. Tiro o meio frango do refrigerador, abro a embalagem, descarto isopor, plástico, besunto a carne com tempero pronto, coloco na assadeira. Ligo o forno.

Esfinge sobre a lava-louça, Zara me observa. Eu em pé, terno ainda, gravata afrouxada, camisa branca respingada de tempero pronto, assadeira com o meio frango besuntado na mão, o forno aquecendo.

Zara alterna olhares graves: eu, o frango, o frango, eu. Desce da lava-louça, o cetim de sempre. Abandona a cozinha em silêncio, sem olhar pra trás.

Nunca mais recebi oferendas.