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Arca

Noé se ajeita no banco, espia o céu carregado, gira a chave, arranca o ônibus. Linha 601, circular metropolitano, mais de uma hora cada volta. Até a primeira parada, dez minutos só seus, ônibus vazio, braço pra fora, vento no rosto, cigarro, cantoria, delícia.

Na primeira parada, apenas o casalzinho sorridente, loiro, morena. Noé abre a porta, sobem. Na segunda, mais um, moreno e loira. Sobem. Depois duas jovens às carícias, dois senhores de mãos entrelaçadas. Em seguida mais dois ou duas, um e uma, uma e um, difícil saber, os olhos de Noé embaralhados de tanta combinação. Pretos, pardos, brancos, vermelhos, amarelos. Cabelos lisos, crespos, cacheados, raspados, faltando. Sempre subindo, aos pares, parada por parada.

Ônibus lotado, pululando. As paradas agora todas vazias como nunca antes. Noé com um troço estranho no peito, não sabe se angústia, euforia. Mãos firme no volante, pensamento mergulhado no asfalto. Faz o sinal da cruz, beija a medalhinha dourada.

Chega a chuva. Cântaros, divinos, inclementes. Água que sobe, ergue o ônibus. Noé solta o volante. Flutuam, esmo. Agora é com Deus, pensa.

Quarenta dias, quarenta noites, águas incessantes. Noé fuma, espia os passageiros pelo retrovisor. Conversam, animados. Pares que trocam o tempo todo. Abraços, beijos, risadas.

A chuva cessa. Passageiros adormecidos, empilhados. Alguns roncam. Noé insone, olha em volta: cidade toda submersa, trezentos e sessenta graus de espelho d’água sem fim. Nada do que era é.

Mais cento e cinquenta dias à deriva, Noé sem pregar o olho, cigarro se foi. Arremessa a medalhinha dourada pela janela. Chora. Quer apertar o botão, abrir a porta do ônibus, deixar a água entrar, acabar com tudo aquilo.

Adormece sobre o volante.

As águas baixam, cuidadosas. O ônibus, linha 601, circular metropolitano, pousa sobre a lama da praça da República. Os passageiros aguardam, comportados, silentes. Quando Noé despertar, sairão, dois a dois, mãos dadas, sob a bênção do arco-íris, deslumbrante como nunca antes.