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Tambaqui

Boné, macacão, botas de borracha, molinete novo. Meu pescador mirim sentado no velho píer do pesque e pague. Coça a bochecha gorda de menino. Funga. Balança impaciente as pernas curtas sobre a água do lago. Olhar fixo na boia inerte.

Lá na outra margem, o adolescente magrelo grita, vara encurvada, puxa. O enorme tambaqui alçado da água pipoca na grama. Assobios, palmas, risadas. Meu pescador favorito me olha, mortificado. Pede pra eu trocar a isca. Troco. Arremesso a nova isca na água, devolvo o molinete. Ele segura, mãos moles. Firme, digo, senão o peixe leva tudo embora. Não tem peixe nenhum, resmunga. O tambaqui fantasmagórico pairando sobre nós.

Nosso balde retornará vazio, acontece. Mistérios do lago: talvez tambaquis não gostem de meninos, nem de molinetes novos, nem de iscas de pais atrapalhados. Vontade de mergulhar, agarrar o insolente pelas guelras, enfiar o anzol naquela boca de peixe, ver a maldita boia afundar pelo menos uma vez.

Em breve perderá a paciência, vamos embora pai, dirá. Comeremos pizza no caminho de volta, pepperoni, sorriso. Por mim, ficaríamos aqui no píer. Anos a fio. Ele assim, parado sob o poente: boné, macacão, bochechas vermelhas de tanto coçar. Sem crescer um milímetro sequer.